0# CAPA 27.5.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
Edio 2427  ano 48  n 21
27 de maio de 2015

[descrio da imagem: aparecem imagens de 6 ovos, em fila. Todos tem desenhado uma boca e os olhos, representando o rosto, mas com diferenas de expresso, de tristeza a sorriso. O ltimo da fila com o ano 1960, tem expresso de tristeza.  sua frente o do ano 1970, com sorriso. A seguir o ano 1980, com tristeza, depois ano 1990, com sorriso, e em seguida o representante do ano 2000, com tristeza. Na frente, um ovo bem alegre, com cr laranja.]
OVO
VITRIA FINAL
Depois de dcadas de vai e vem, a cincia d o diagnstico definitivo: ele faz bem 
E o caf e o vinho tinto tambm

[outros ttulos: parte superior da capa]
INVESTIGAES VEJA

DO FURTO AO LATROCNIO
A cada passagem pelas cadeias brasileiras, o criminoso fica mais letal.

LULA (QUASE) L!
Nos dez anos do mensalo, testemunhas contam como e a que custo ele escapou.

CORRUPO OFICIAL
Provado: quanto mais militantes em cargos, maior o escndalo.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# GERAL
6# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 27.5.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  UMA VEJA MUITO ESPECIAL
     1#3 ENTREVISTA  RICHARD DAWKINS  MARAVILHE-SE COM O UNIVERSO
     1#4 LYA LUFT  NUNCA BANALIZAR O MAL
     1#5 LEITOR

1#1 VEJA.COM
HORRORES DE GUERRA
Coletar trofus de guerra  algo to antigo quanto a prpria guerra. Entre os soldados curdos  os chamados peshmergas  que lutam contra os jihadistas do Estado Islmico no Iraque no  diferente. Mas a difuso dos smartphones mudou a prtica. Agora os combatentes compartilham em grupos de WhatsApp fotos e vdeos de jihadistas abatidos. Reportagem fotogrfica em VEJA.com mostra que as imagens so emblemas de orgulho e coragem  e um estmulo para quem vai se engajar em novos combates.

ONDE FORAM PARAR AS ABELHAS?
A Casa Branca criou um plano para salvar as abelhas dos Estados Unidos. As medidas foram anunciadas depois que o Departamento de Agricultura americano detectou que a queda no nmero de insetos em seu territrio, que j ocorre h anos, atingiu o nvel alarmante de 40%. Reportagem no site de VEJA mostra que a parcela da agricultura do pas que depende dos insetos gera 15 bilhes de dlares ao ano - mas essa  apenas uma das razes por que a proteo s abelhas se tornou uma questo de Estado, cuja importncia no se restringe aos Estados Unidos. 

JOHNNY MASSARO E O NOVO ROMANTISMO
Com o poeta simbolista Augusto dos Anjos (1884-1914) como principal referncia, Johnny Massaro arranca suspiros e emociona como o excntrico Gabriel de Amorteamo. Carioca de 23 anos, o ator tem feito um trabalho aps o outro desde que se destacou como o encantador Ferdinando na novela Meu Pedacinho de Cho. Enquanto a srie de Cludio Paiva, Guel Arraes e Newton Moreno vai ao ar, Massaro roda na Serra Gacha o longa O Filme da Minha Vida, dirigido por Selton Mello. No fim do ms, deve voltar ao Rio para mergulhar nos workshops de A Regra do Jogo, prxima novela das 9. Correria? Nada, ele ainda encontra tempo para fazer poesia - e planeja lanar um livro em breve. " um compromisso que assumi comigo mesmo: encarar uma coisa de cada vez. Se eu misturar tudo e ficar pensando no que isso representa, no vou conseguir fazer nada", diz em entrevista ao site de VEJA. 

A BANDEIRA DA BARBA
Hipster ou clrigo. No Ir, essas so as categorias em que se encaixam homens de barba longa e cheia. Ao contrrio do que o esteretipo faz pensar sobre o uso da barba no pas islmico,  difcil encontrar homens barbudos pelas ruas das cidades iranianas. Reportagem no site de VEJA mostra como a barba se transformou num dos sinais mais evidentes de posies polticas e culturais dos cidados iranianos. 


1#2 CARTA AO LEITOR  UMA VEJA MUITO ESPECIAL
     A edio de VEJA desta semana traz quatro reportagens especiais, um esforo editorial de flego que enriquece a revista. As quatro resultaram de investigaes profundas e exclusivas empreendidas pela equipe de jornalistas de VEJA. Uma delas analisa os efeitos atuais do mensalo, que completa dez anos em junho prximo, data em que, em 2005, foi instalada a CPI que investigou o escndalo. Feita pelo editor Daniel Pereira, da sucursal de VEJA em Braslia, a reportagem foca, principalmente, o papel do ento presidente Lula no episdio e explica como ele conseguiu escapar das penas da lei que alcanaram seu alto-comando partidrio e de governo. Passada uma dcada, muitas das pessoas que sabiam sobre o envolvimento de Lula e se calaram  ou contaram apenas parte da histria  se sentiram mais  vontade para relatar o que testemunharam. 
     Enobrece a revista uma investigao de seis meses sobre as cadeias brasileiras como "escolas do crime." O jornalista Kalleo Coura examinou mais de 1000 histricos de criminosos, falou com dezenas deles, ouviu especialistas e juzes das varas de execuo penal. A triste constatao  que cada passagem pelo sistema penitencirio torna o criminoso ainda mais violento e perigoso, uma escalada assustadora que pode comear com um pequeno furto e redundar em latrocnio. 
     A terceira reportagem de fundo deste nmero debruou-se sobre a base material da corrupo e da instabilidade de nosso sistema poltico que so as dezenas de milhares de cargos federais preenchidos por meio de barganhas do Executivo com os partidos que o apoiam. O levantamento do editor especial Andr Petry demonstra que os episdios de corrupo no plano federal so diretamente proporcionais ao nmero de cargos de cada setor preenchidos por critrio partidrio. 
     A quarta investida da revista, de responsabilidade da jornalista Adriana Dias Lopes, se deu sobre a surpreendente e drstica mudana nas recomendaes acerca do colesterol nos alimentos anunciada pelas autoridades de sade dos Estados Unidos. De vilo absoluto no prato, o colesterol passou a ser admitido em qualquer quantidade nos alimentos. Isso se deve a uma srie de descobertas sobre o fato de que o colesterol que realmente faz mal no  o ingerido, mas aquele que  sintetizado no fgado. O mais significativo, porm,  que essa nova recomendao no  mais um daqueles diagnsticos positivos que podem se tornar negativos  luz de futuras pesquisas. A liberao do colesterol ingerido resulta de dcadas de estudos sobre o metabolismo humano. A certeza dos pesquisadores foi tambm construda sobre uma base de dados completa, que s recentemente se tornou acessvel  comunidade cientfica. Boa leitura!


1#3 ENTREVISTA  RICHARD DAWKINS  MARAVILHE-SE COM O UNIVERSO
Aos 74 anos, o bilogo ingls, conhecido pela vigorosa defesa do darwinismo e do atesmo, lana sua autobiografia, defende seu legado acadmico e d conselhos aos jovens cientistas.
ANDR PETRY

Richard Dawkins alcanou um status incomum:  uma celebridade, que rene enormes plateias aonde quer que v, por duas razes  a biologia e o atesmo. Como cientista,  autor do best-seller O Gene Egosta, que h quarenta anos deflagrou o debate sobre a relevncia do gene na evoluo das espcies, e inventou o termo "meme", entendido como o gene da evoluo cultural. Como ateu,  autor de outro best-seller, Deus, um Delrio, de 2006, que virou porta-bandeira do movimento dos ateus. Agora, aos 74 anos, j aposentado como professor de Oxford, Dawkins est lanando o primeiro volume de sua autobiografia no Brasil, Fome de Saber. No livro, ele exibe toda a sua curiosidade e sua fleuma de ingls colonizador, adquiridas talvez na infncia passada no Qunia, onde seu pai trabalhava como agrnomo no Servio Colonial. Nascido em Nairbi, Dawkins mudou-se para a Inglaterra aos 8 anos. Fez uma carreira brilhante como defensor incandescente da teoria de Charles Darwin e, depois, como prncipe dos ateus, ao denunciar a religio como retrgrada, contra o progresso da cincia e manipuladora de coraes e mentes. Por e-mail, antes de embarcar para o Brasil, onde participa nesta semana do seminrio "Fronteiras do pensamento", em Porto Alegre e So Paulo, Dawkins deu a seguinte entrevista a VEJA. 

O senhor tem a convico intelectual, e a tem defendido com paixo e consistncia, de que a evoluo  um processo progressivo. Um dos seus rivais mais brilhantes, o paleontlogo Stephen Jay Gould, que morreu em 2002, estava convicto de que, ao contrrio, a evoluo  um processo contingncial. Por que o senhor acha que est certo? 
Com toda a certeza, a evoluo  progressiva no sentido de que certos rgos complexos e funcionais, como os olhos, por exemplo, vo gradual e progressivamente ficando melhores na execuo de suas tarefas. Qualquer pessoa que no perceba isso estar subestimando a complexidade do desenho aparente dos organismos vivos. Mas a evoluo tambm  contingencial na medida em que o seu curso exato depende, fortemente, de fatores desconhecidos e aleatrios. 

Como a extino dos dinossauros? 
Sim, era previsvel, depois da extino, que outros animais tomassem o lugar que antes era ocupado pelos dinossauros e o fizessem de maneiras muito bvias: alguns seriam bons caadores e teriam adaptaes prprias para a caa muito semelhantes s do dinossauro cujo lugar estavam tomando. Outros seriam bons para pastar, outros para voar, outros para nadar e assim por diante. Tudo previsvel. Cada uma a seu modo, todas essas evolues ocorreram de maneira progressiva. Agora, o fato de que os dinossauros seriam extintos do planeta foi contingencial, um acidente, assim como foram acidentais os detalhes sobre quem assumiria o lugar de quem. Quer dizer: que grupo de mamferos tomaria o lugar de que grupo de dinossauros. 

Como bilogo evolucionista, o senhor acha possvel que a humanidade acabe coevoluindo com os computadores, num processo que tem sido chamado de "destino de silcio"? 
Antes, preciso ressaltar que, nesse ponto, estamos entrando no reino da fico cientfica. Mas, respondendo  sua pergunta, sim, acho que existe uma possibilidade real de que isso acontea. 

O senhor poderia definir o que  conscincia? Os animais tm conscincia de si mesmos, no sentido de ter autopercepo dentro de seus arredores? 
 tremendamente difcil definir o que  conscincia. No existe consenso sobre isso. Mas, obviamente, a conscincia evoluiu como uma propriedade emergente dos crebros. Ns, seres humanos, temos conscincia. Portanto,  certo que, em algum momento, nossos ancestrais obrigatoriamente desenvolveram a conscincia. Duvido que isso tenha acontecido num nico e repentino salto porque nada que  importante evolui assim, de maneira abrupta. Ento, presumo que nossos ancestrais tiveram conscincia, numa forma mais ou menos rudimentar e num tempo bastante distante no passado. Portanto, acho que nossos primos, ou seja, os outros descendentes de nossos ancestrais, provavelmente tambm tm conscincia. 

Como darwinista apaixonado, se o senhor pudesse encontrar Charles Darwin (1809-1882) e falar com ele frente a frente, o que gostaria de lhe perguntar? 
Minha pergunta seria: "Por que o senhor demorou tanto a publicar sua teoria? O senhor no pensou que algum poderia descobri-la antes?". E, de fato, foi o que aconteceu, pois Alfred Russel Wallace (1823-1913) acabou descobrindo antes. 

O senhor tem sido chamado de "prncipe do atesmo" pela sua militncia como ateu. Os crticos dizem que seu atesmo evita os grandes debates teolgicos que enriquecem a religio e a prpria filosofia e, ao fazer isso, o senhor acaba simplificando o que  complexo. Eles esto errados? 
Sim. Mesmo porque no existem grandes debates teolgicos. Teologia  um no assunto, carente de contedo. O universo, o mundo e a vida tm complexidade suficiente. No precisamos importar a complexidade manufaturada e inventada da teologia. Claro que muitos professores de teologia realizam um trabalho interessante e importante quando, por exemplo, trabalham com documentos bblicos, com a histria bblica, com a arqueologia. Mas isso  muito diferente de balelas vazias como ficar debatendo o "significado" da Trindade e da transubstanciao... 

 medida que o conhecimento cientfico sobre o mundo vai se ampliando, fica mais difcil acreditar em certos dogmas religiosos, como a ideia de que a humanidade tem apenas 6000 anos de existncia. Mas isso no  a mesma coisa que dizer que religio e cincia so completamente incompatveis, certo? 
No, no  exatamente a mesma coisa. Num sentido trivial, religio e cincia so compatveis, tanto que existem cientistas religiosos. Mas, por outro lado, alguns dos cientistas que se apresentam como religiosos no tm f no sentido dos que acreditam num Deus pessoal que ouve suas preces. Eles so crentes no sentido de Albert Einstein, que disse: "Eu acredito no Deus de Espinoza, que se revela na harmonia de tudo o que existe, e no num Deus preocupado com o destino e as aes da humanidade". De modo que, da forma como penso, a religio e a cincia so inteiramente incompatveis. Mesmo os cientistas que chegam a acreditar num Deus pessoal talvez s consigam realizar essa proeza erguendo barreiras mentais entre reas impossveis de ser compatibilizadas. 

O senhor diz que a religio  um obstculo ao avano da cincia. Mas, num mundo religioso, a cincia teve avanos fenomenais nos ltimos sculos. A religio  realmente uma trava ao progresso cientfico? 
A cincia poderia ter progredido muito mais rapidamente num mundo no religioso. Atualmente, a maioria dos cientistas no  religiosa. Entre os cientistas que esto na elite da nossa atividade, integrando instituies renomadas como a Academia Nacional de Cincias dos Estados Unidos ou a Royal Society britnica, a esmagadora maioria no  religiosa. Em sculos anteriores, particularmente antes de Charles Darwin, era muito difcil para qualquer um no ser religioso. Por isso, no  nenhuma surpresa que Newton e Galileu, por exemplo, fossem religiosos. 

De que parte da Bblia, presumo que na verso do rei James, o senhor gosta mais em termos literrios? 
Eclesiastes e Cntico dos Cnticos. 

No ano passado, uma mulher perguntou ao senhor o que deveria fazer se estivesse grvida de um feto com sndrome de Down. No Twitter, o senhor respondeu: "Aborte e tente de novo. Seria imoral trazer o feto ao mundo se voc tem escolha". Por que seria imoral? 
Na realidade, no podemos esquecer que a vasta maioria das grvidas de um feto com sndrome de Down escolhe o aborto, pelo menos em pases onde o aborto  um direito. Vou repetir, para que no haja dvida: a vasta maioria escolhe o aborto. A deciso  delas, e acho que se trata de uma escolha pragmaticamente sensata; pode-se dizer que  tambm uma escolha moral.  desnecessrio acrescentar que eu jamais, em hiptese alguma, defendi que matassem as crianas nascidas com sndrome de Down. E desnecessrio, mas acrescento mesmo assim, para rebater essa acusao caluniosa que alguns me fizeram. 

Os pais de filhos com sndrome de Down relatam experincias tremendamente enriquecedoras. 
Tenho absoluta conscincia de que os pais de portadores de Down amam os filhos profundamente e tenho certeza de que, se eu fosse pai de uma criana com sndrome de Down, eu tambm a amaria profundamente. Mas no era essa a escolha em questo no debate no Twitter. A pergunta, hipottica, era: o que deve fazer uma mulher que descobre, atravs do exame de amniocentese, que est grvida de um feto com sndrome de Down? Qualquer pessoa que  contra todo e qualquer tipo de aborto teria uma boa causa para discutir comigo. Mas, para quem aceita a moralidade do aborto, no faz nenhum sentido que uma mulher fique mais inclinada a abortar um feto saudvel do que um feto com sndrome de Down. 

Por que o senhor escreveu uma autobiografia? 
Cheguei  idade de me aposentar e minha me estava, e ainda est, na casa dos 90 anos desfrutando uma boa memria sobre a minha infncia, de modo que eu ainda podia explor-la. Somando tudo, pareceu-me a hora certa de fazer uma autobiografia. 

Na autobiografia, o senhor escreveu o seguinte: "No posso deixar de me perguntar se  mesmo saudvel para a educao infantil uma dieta  base de contos de fadas cheios de feitios e portentos". Seu receio  que crianas que ouvem essas histrias se tornem adultos prontos para aceitar o pensamento mstico e religioso? 
Como voc disse, eu escrevi: "No posso deixar de me perguntar". Isso no  o equivalente a escrever: "Tenho certeza". Perguntar-se  o que os cientistas fazem de melhor. Tenho a impresso de que no  uma possibilidade inteiramente desarrazoada que os contos de fadas possam fazer as crianas crescer como adultos educados para o pensamento mgico. Mas, por outro lado, a evidncia psicolgica sugere que isso provavelmente no acontece. 

Quem  o melhor modelo de cientista contemporneo? 
Sir Peter Medawar (1915-1987), que, alis, nasceu em Petrpolis, no interior do Rio de Janeiro. Ele combinava um gnio cientfico com uma cultura exuberante. Mas, se voc se refere a um cientista contemporneo vivo, eu sugeriria a astrofsica americana Carolyn Porco, que  um modelo magnfico para as mulheres jovens:  uma excelente cientista com uma imaginao potica. 

Qual seria o seu melhor conselho para um jovem cientista num pas como o Brasil? 
No seria diferente do conselho que eu daria a um jovem cientista em qualquer outro pas. Eu recomendaria: inspire-se na maravilha do universo, do mundo e da vida, e, portanto, sempre mantenha em mente essa ampla perspectiva. 

Uma pergunta singela: por que existimos e por que estamos aqui? 
Claro que voc no espera que eu responda a essa questo num pargrafo, sendo que escrevi onze livros sobre isso. Espera?


1#4 LYA LUFT  NUNCA BANALIZAR O MAL
     Por estranho que parea, tudo cansa, como certos sofrimentos ou preocupaes: se excessivos, constantes e repetitivos, comeam a nos desinteressar. Assim, a amiga eternamente queixosa de seu pssimo casamento mas que nele continua, a conhecida que s fala de suas doenas mas no se trata, o colega que repete sempre que vai largar o emprego mas nele permanece, mesmo insatisfeito; enfim, as pessoas queixosas que aparentemente curtem suas mazelas, mas nos perturbam com suas lamentaes, fazem parte de um tipo de desgraa banalizada pela repetio. 
      quando a desgraa perde a graa. 
     Por estes dias receio que a gente v se acostumando com as tristes e assustadoras notcias dirias sobre a interminvel teia de revelaes dos males que fazia anos solapavam a estabilidade e a honra do Brasil, e a gente no sabia. Agora, terremoto, tsunami, susto e perplexidade. Esse  um mal ao qual no podemos nos habituar, mas o perigo existe. Pois j na mesa do caf  somos afligidos por notcias do pas como a roubalheira pica em estatais, como a Petrobras e outras (e a ameaa de impunidade), a carnificina nas estradas e nas ruas de nossas cidades, a matana nas favelas do Rio de Janeiro em que diariamente morrem mais bandidos, inocentes ou policiais do que nas guerras atuais no Oriente. Tudo isso ao som dos tiroteios que acompanham a sinistra festa da morte. 
     At o horror distante vai se tornando cotidiano: milhares e milhares de imigrantes, homens, mulheres, crianas, grvidas e velhos, aportam na costa da Itlia diariamente ou so resgatados no mar. 
     Outro dia, uma menininha de 12 anos explodiu a dinamite presa ao corpo, levando consigo vrias pessoas. A longa lista de horrores ainda nos apavora? Estamos mais insensveis, ou  apenas um passageiro susto meu, interpretando mal meus prprios sentimentos, eu sempre atenta, facilmente condoda com a dor alheia, demais desde menina perseguida por esse desejo infantil de consertar o mundo  que fazia rir minha me e preocupar-se meu pai? 
     A feia viso do Brasil que vamos tendo nestes ltimos meses vai se tornar nossa paisagem costumeira? Os crimes contra o pas, e todo o cortejo de destruio que trazem consigo, fazem parte de nossa realidade como ler jornal, pegar nibus, pagar contas  cada dia pagando mais e ganhando menos porque ns estamos pagando, e muito mais vamos pagar? Vemos resignados a pssima gesto, a omisso e os desvios que ocorriam livremente, gerando desemprego, alta de preos, educao, sade, transportes, num giro delirante que leva o pas  estagnao? 
     Tenho medo da banalizao de tantos males, demasiados, talvez, para que a gente d conta deles na nossa pequena dura realidade cotidiana. Mais uma faculdade fechando as portas porque no recebe do governo o dinheiro para pagar o pessoal da segurana e da limpeza; portanto, sujeira e medo impedem seu funcionamento? Mais gente morrendo ou parindo nos corredores, no cho, no meio da imundcie, mdicos e enfermeiras desesperados porque falta at gua limpa? Mais crianas sem escola? Mais um parente ou conhecido assaltado e morto, quem sabe por uma meninada de 15 anos que no vai ser tratada como criminosa? No tem jeito... 
     Tem jeito, sim: nossa indignao legtima e ordeira pode ajudar lderes decentes a dar um jeito neste pas. Vamos descobrir como: o mercado persa dos cargos e bondades tenta atrapalhar o trabalho da Justia, que pode tirar o Brasil da lista dos piores em tantos aspectos  e s ento a gente poder novamente orgulhar-se dele, em vez de fazer parte de um mundinho isolado, atrasado e aos poucos ignorado, a que estvamos sendo reduzidos. 
     Banalizar o mal  um jeito fatal de nos protegermos da angstia. O que nos vem sendo revelado pela Justia  estarrecedor, e atinge a cada um de ns profundamente. Podemos mudar o Brasil. No merecemos pagar as altas contas que apenas comeam a aparecer. Por isso, mesmo sabendo que sou repetitiva  e posso cansar o leitor , escrevo, escrevo e escrevo.
LYA LUFT  escritora


1#5 LEITOR
OPERAO LAVA-JATO
Nesta fase da apurao da tunga aos cofres da Petrobras, s um fato como o descrito na reportagem "Sabotagem ou negligncia" (20 de maio) para tentar "melar" o que foi apurado at agora... Lembra bem o acontecido no caso Watergate, que derrubou o presidente americano Richard Nixon nos anos 70. 
ANTNIO CARLOS DUPRAT BARROS 
Recife, PE 

Aquilo de que todo cidado de bem e sem partidarismo doentio desconfia, desde o incio da Operao Lava-Jato, vem se confirmando a cada nova etapa do processo: altas patentes petistas, leia-se seu fundador e sua criatura, esto envolvidas at o pescoo no lamaal. Mas essa turma no vai deixar barato, e toda artimanha (exemplos passados no faltam) ser utilizada para desqualificar o juiz Srgio Moro e sua equipe. 
EDER DE AGUIAR E SILVA 
Belo Horizonte (MG), via tablet 

 lamentvel ver uma instituio como a Polcia Federal digladiar-se e pr em risco um trabalho to benfeito at aqui. 
EDEMAR SCHULZ 
Goinia (GO), via tablet 

 medida que as investigaes  e as revelaes da operao  se aprofundam, mais cresce o temor pela sabotagem... Olho vivo, juiz Srgio Moro! 
ROBERTO SZABUNIA 
Joinville, SC 

Em relao  citao feita na reportagem "Sabotagem ou negligncia", o ministro da Defesa, Jaques Wagner, por meio da assessoria de comunicao social, esclarece: 1) No se reuniu com a filha do senhor Ricardo Pessoa, da construtora UTC; 2) Todas as doaes  sua campanha foram feitas em obedincia  legislao e as referidas prestaes de contas foram feitas e aprovadas pela Justia Eleitoral.
SNIA CARNEIRO 
Assessoria de comunicao social do Ministrio da Defesa 
Braslia, DF 

J.R. GUZZO 
O artigo "Tudo 'depende'" (20 de maio)  o melhor texto de J.R. Guzzo. Claro, como sempre, objetivo e direto. Mais de uma dcada se passou, e os tucanos, nos quais um dia acreditei, nada mostraram a no ser o desejo de sair na foto. J.R. Guzzo deixa claro quanto estamos rfos num momento to crtico de nossa histria republicana. Estamos ss? 
MAURCIO MEZZACAPPA 
Piracicaba (SP), via tablet 

timo o artigo de J.R. Guzzo quando diz que os tucanos no possuem firmeza em suas convices. Apenas continuam provando que, nos assuntos polmicos, sempre ficaro "em cima do muro". Tivemos, a meu ver, o exemplo mais absurdo quando acharam que no seria o momento de cassar o mandato do ento presidente Lula, no caso do mensalo. E, at hoje, no entendi a defesa veemente do senador lvaro Dias para a indicao do senhor Luiz Fachin ao STF, muito embora haja diversas contradies daquele indicado em assuntos que muito interessam a todos os brasileiros. 
JOANIR SERAFIM WEIRICH 
Braslia, DF 

O brilhante artigo de J.R. Guzzo expressa com clareza o lamentvel comportamento do PSDB no papel de opositor ao governo. Escndalos e mais escndalos, e cad os tucanos? No conseguem mobilizar nenhum movimento... Resumindo: no temos governo nem oposio! 
RODRIGO HELFSTEIN 
So Paulo (SP), via smartphone 

LUIZ FACHIN 
Doze horas de um jogo de cartas marcadas. Assim foi a sabatina da Comisso de Constituio e Justia do Senado a Luiz Edson Fachin. A comisso, em sua vertente oposicionista e sem muito radicalismo, ouviu apenas aquilo que esperava. Por sua vez, o sabatinado deixou clara sua posio circunstancial ("A circunstncia...", 20 de maio). Um homem de decises volteis, que atende a interesses pontuais, momentneos. Assim transpareceu ser Luiz Fachin. A circunstncia  uma tima sada para uma sabatina, mas o oportunismo  uma pssima justificativa para o Brasil. 
WALASON DANTAS ROMEIRO 
So Gonalo do Amarante, RN 

A priori, pensei que Luiz Fachin fosse um bom nome para uma cadeira no STF, j que seu currculo  decente. Entretanto, cheguei  concluso de que  complicado ver um futuro ministro do STF no condizer com o que pregou at ontem. 
LUCAS DA SILVA RODRIGUES 
Parnamirim, RN 

A questo maior no  o perfil de qualquer indicado para ministro do STF, mas sim a forma de provimento do cargo, ou seja, a livre escolha pelo Executivo em combinao com o Senado. S pode ensejar equvocos, com uma ou outra exceo.  deplorvel que nos crculos polticos ningum defenda a criao de um colegiado formado por Ministrio Pblico Federal, Magistratura Federal e OAB, que teria a prerrogativa de escolher e indicar nomes, substituda a vitaliciedade pelo exerccio de mandato a prazo certo. A permanecer o sistema vigente, sempre haver o risco de vir a inspirar os julgamentos aquela clebre mxima: "A Justia  igual para todos  a j comea a injustia..."! 
LAFAYETTE PONDE FILHO 
Salvador, BA 

THOMAS LOVEJOY 
O bilogo americano Thomas Lovejoy nos transmitiu uma viso muito lcida e segura sobre a preservao ambiental ("Preservar para explorar", Entrevista, 20 de maio). A mdia publica com frequncia matrias que exaltam a queda do desmatamento na Amaznia. Notcia a comemorar seria o fim do desmatamento na Amaznia, j que o senhor Lovejoy afirma ser possvel a explorao sustentvel, sem a destruio do ecossistema. 
CELSO BENINI 
Braslia, DF 

Nessas Pginas Amarelas com o bilogo Thomas Lovejoy pude sentir a esperana, pude pensar que ainda temos tempo de reagir. Estamos no agora, e  neste momento que est depositada a nossa obrigao com o futuro de nossos filhos, das prximas geraes. Thomas Lovejoy indica os perigos e as solues viveis; mostra que podemos fazer sem destruir a natureza. Precisamos aprender a preservar para poder explorar. 
MARIA LCIA CAPANEMA CCERES 
Belo Horizonte, MG 

Muito oportuno o reconhecimento do bilogo Thomas Lovejoy ao engenheiro-agrnomo e professor brasileiro Eneas Salati e sua descoberta sobre o ciclo hidrolgico na Amaznia, fenmeno relacionado com o regime de chuvas no Sudeste do Brasil. O professor Eneas Salati, entre outras tantas pesquisas, tambm esteve  frente de importantes iniciativas para a avaliao da fixao de carbono pelas florestas e o efeito nas mudanas climticas. 
JOS LUIZ DA SILVA MAIA 
Agudos, SP 

B.B. KING 
Com sua morte, em Las Vegas, aos 89 anos, o "rei do blues" B.B. King deixa um legado imensurvel para seus milhes de fs no mundo ("O rei est morto", Memria, 20 de maio). Sinto-me um privilegiado, pois pude assistir a um de seus maravilhosos shows em uma de suas passagens pelo Brasil. O blues perdeu seu rei; os Estados Unidos, um cone da boa msica; e o mundo, uma lenda insubstituvel. Que ele e sua guitarra Lucille descansem em paz, pois fizeram a diferena aqui na Terra. 
TURBIO LIBERATTO 
So Caetano do Sul, SP 

No foi  toa que o guitarrista B.B. King influenciou roqueiros excepcionais como Eric Clapton, Jeff Beck, Keith Richards e George Harrison. Era impossvel ouvi-lo e ficar indiferente. O bluesman, que morreu aos 89 anos, deixa viva a inseparvel companheira que o entendia como ningum: Lucille, a guitarra pela qual chegou a arriscar a prpria vida para salv-la de um incndio. Um homem que fazia uma nota valer por mil s podia ser um gnio. 
JOS RIBAMAR PINHEIRO FILHO 
Braslia, DF 

GAL COSTA 
tima a reportagem "Todos os tempos de Gal" (20 de maio), do jornalista Srgio Martins, sobre os cinquenta anos de carreira da cantora Gal Costa. Assisti ao show em que ela interpreta canes do compositor gacho Lupicnio Rodrigues. Gal faz o que quer com a voz e prova, com o novo trabalho, Estratosfrica, que no  apenas a maior cantora do Brasil e a voz mais bonita; ela continua moderna e antenada com novos e velhos compositores da MPB. Mais que merecido. 
CRISTIANO MOTA 
Valena, BA 

AMOR 
Tentar dar um sentido racional a um sentimento to desconhecido, como o amor, realmente foi uma boa tentativa da matemtica inglesa Hannah Fry, que infelizmente no funcionou ("A matemtica do amor", 20 de maio). O amor  para ser sentido, e no decifrado. 
ANA BEATRIZ FERREIRA DO AMARAL ANTUNES 
Curitiba (PR), via smartphone

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.
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2# PANORAMA 27.5.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  ELES VEEM TUDO ROSA
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM PHILIPPE STARCK  CUIDADO: ARTISTA CRIANDO
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  ELES VEEM TUDO ROSA
Os eleitores de Hillary ignoram quanto ela est enrolada com e-mails suspeitos.

A dezoito meses das eleies para a Presidncia dos Estados Unidos, nenhum aspirante ao cargo  preo para Hillary Clinton. Os potenciais candidatos de seu partido, o Democrata, prevendo um massacre nas primrias, relutam em enfrent-la. Os que se engalfinham pela nomeao do Partido Republicano so meros desconhecidos em comparao  mulher que j foi primeira-dama por oito anos e secretria de Estado, cargo equivalente ao de ministra das Relaes Exteriores, durante quatro. Hillary  to favorita que age como se no devesse explicaes sobre os e-mails trocados com o multifacetado Sidney Blumenthal e que foram expostos por um hacker romeno. Blumenthal era, para os Clinton, o que Doug Stamper, personagem da srie House of Caras,  para Frank Underwood  o encarregado dos servios sujos dos polticos. Quando Bill Clinton quase perdeu o cargo por suas estripulias sexuais com Monica Lewinsky na Casa Branca, em 1998, Blumenthal espalhou entre os jornalistas que a estagiria  que assediou o presidente e preparou dossis para manchar a reputao de reprteres bisbilhoteiros. Hillary tentou contrat-lo como assessor no Departamento de Estado, mas ele foi barrado pela equipe de Barack Obama. Os e-mails vazados indicam que isso no impediu Blumenthal de aconselhar Hillary em questes de poltica externa, sempre de maneira a defender grupos estrangeiros com os quais ele tinha negcios. Esses interesses privados parecem se confundir com os da ONG pseudofilantrpica fundada pelos Clinton, j que Blumenthal estava na sua folha de pagamento. Mais da metade dos eleitores democratas pouco ou nada sabe da Fundao Clinton e de seus enroscos. Quando se trata de Hillary, eles vem tudo rosa. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
Elias Gleizer, ator paulistano que participou de mais de cinquenta novelas, minissries e especiais. Filho de judeus poloneses, que vieram para o Brasil fugindo da guerra, foi registrado como Ilicz Glejzer. Comeou na televiso em 1959, na Tupi. Filmou a primeira novela, Se o Mar Contasse, cinco anos depois, na mesma emissora. Foi na Globo, no entanto, que gravou seus trabalhos mais conhecidos. Estreou em 1984, na novela Livre para Voar. Atuou ainda em Tieta (1989), Sonho Meu (1993), Era Uma Vez (1998) e Terra Nostra (1999). Tambm participou da minissrie Chiquinha Gonzaga (1999), do seriado Malhao e do programa de humor Zorra Total. Seu papel mais recente foi na novela Boogie Oogie (2014). Gleizer estava internado desde o dia 6, aps cair de uma escada rolante. Dia 16, aos 81 anos, de falncia circulatria, no Rio de Janeiro. 

Dean Potter, celebridade dos esportes radicais. Praticante de escalada e base jump, modalidade que consiste em saltar de penhascos com paraquedas, foi eleito o aventureiro do ano pela revista National Geographic em 2009. Recentemente, causou polmica ao lanar o documentrio When Dogs Fly, em que aparece saltando de wingsuit (espcie de macaco com asas) com sua cadela Whisper. Potter morava fazia vinte anos na regio do Parque Nacional Yosemite, na Califrnia. Embora o base jump fosse proibido no local, o aventureiro burlava as regras. Seu salto derradeiro foi de mais de 2300 metros de altura. Ele e um amigo acabaram batendo nas pedras. Dia 16, aos 43 anos, na Califrnia. 

John M. Templeton Jr., mdico pediatra e filantropo presbiteriano que procurava conciliar cincia com religio. Desde a morte do pai, em 2008, era presidente da Fundao John Templeton, organizao filantrpica que, anualmente, oferece um prmio de 1,7 milho de dlares a uma personalidade que tenha contribudo para afirmar a dimenso espiritual da vida. Madre Teresa de Calcut, Desmond Tutu e o Dalai-Lama esto entre os agraciados. Dia 16, aos 75 anos, de cncer, na Pensilvnia. 

Margaretta Rockefeller, a segunda mulher do ex-governador de Nova York Nelson Rockefeller. Em um perodo em que o divrcio no era bem-visto, o casamento dos dois, em 1963, foi um escndalo. Ambos haviam se separado fazia pouco tempo e ele era dezoito anos mais velho. Happy, como era chamada, foi apontada como a principal razo para que Rockefeller, que almejava tornar-se presidente dos Estados Unidos, perdesse as primrias do Partido Republicano, em 1964. Dia 19, aos 88 anos, de causa no revelada, em Nova York. 

QUA|20|5|2015 
Aposentou-se o americano David Letterman, aps 33 anos  frente do programa Late Show, que ele criou em 1982, inicialmente com o nome de Late Night. Ao longo da carreira, ganhou dezesseis prmios Emmy com seus talk shows  ao todo, foram 112 indicaes. Letterman, que serviu de inspirao para muitos comediantes, havia anunciado sua sada em abril de 2014. O ltimo programa, de uma srie de 6028, teve homenagens de Bill Clinton, Barack Obama, Bill Murray, Jim Carrey e Jerry Seinfeld, entre outros. A partir de setembro, o Late Show ser apresentado pelo humorista Stephen Colbert. Ao se despedir, Letterman declarou: "Obrigado e boa noite. Vocs me deram tudo". 


2#3 CONVERSA COM PHILIPPE STARCK  CUIDADO: ARTISTA CRIANDO
O mais irreverente designer e arquiteto do mundo, de passagem por So Paulo para a inaugurao de uma loja de mveis, diz acreditar que tudo o que j foi feito nas reas em que atua  obsoleto.

O que o design de uma casa deve ter hoje que no precisava ter dez anos atrs? 
Antes, os ambientes no eram integrados, e a cozinha  um bom exemplo desse procedimento ultrapassado. Quando a esposa preparava a comida, o marido ficava na sala, tomando cerveja com os amigos e vendo TV. A integrao torna possvel que um veja o outro, e o projeto ainda fica mais barato. 

O que no d certo na paisagem urbana atual? 
O ego dos arquitetos e o preo cobrado por eles. Dubai, por exemplo, tem edifcios malucos, e o conjunto fica ridculo. 

Se pudesse fazer mudanas na arquitetura de Paris, sua cidade natal, tirar a pirmide de vidro da frente do Museu do Louvre seria uma delas? 
No. O que  feio hoje ser bonito amanh. Veja a Torre Eiffel:  um monstro horrvel, mas virou o smbolo de Paris. Eu mudaria a irritao dos taxistas parisienses diante da poltica. Sem isso, a cidade j seria diferente. 

Tecnologias e objetos usados em casas ecologicamente sustentveis costumam ser feios. O que fazer para deix-los mais atraentes? 
Materiais descartados de madeira e resinas usadas em  revestimento de barcos tm rendido mveis bonitos. 

Gosta do trabalho dos irmos Campana, os mais famosos designers brasileiros? 
Sim. Eles tm produes cheias de fantasia e humor. Gosto de uma cadeira de plstico, com madeira trabalhada, que  bem barata. 

O senhor fez roupas, espremedor de fruta, decorou iates e hotis. O que j tentou fazer que no deu certo? 
H alguns anos, desenvolvi um relgio digitalizado, como os atuais smartwatches, mas era cedo e a onda deles s est acontecendo agora. Todos esses relgios surgiram do meu projeto. 

Qual  a obra de design mundial que mais admira? 
S admiro o futuro e o que no conheo. 


2#4 NMEROS
10 reais alcanou o preo do quilo do tomate na semana passada em supermercados de So Paulo. 
48,6%  a alta acumulada do produto desde o incio do ano, a maior entre os alimentos medidos pelo IBGE. Nos ltimos doze meses, a inflao mdia no Brasil foi de 8,17%, acima do teto da meta, de 6,5%. 
27,5 bilhes de reais, o equivalente a 0,5% do PIB,  o valor que os brasileiros perdero em poder de compra por causa da inflao neste ano, aponta clculo do professor Rubens Penha Cysne, da FGV. 


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Bin Laden -  O governo americano anunciou que no vai divulgar detalhes do vasto material pornogrfico achado no esconderijo do terrorista no Paquisto, onde ele foi morto, em 2011. 
Viagra - Segundo pesquisa franco-britnica, o remdio impede que pessoas contaminadas pela malria repassem o parasita quando picadas por mosquitos transmissores. 
Machado de Assis -  O escritor, injustamente criticado por ter virado as costas  causa abolicionista, foi identificado em uma foto de missa no Rio que celebrou o fim da escravatura no Brasil. 

DESCE
Palmira -  Patrimnio histrico da Sria, a cidade tombou nas mos dos terroristas do Isis, que tambm conquistaram a cidade iraquiana de Ramadi. 
Rio 2016 -  O governo do Rio, que j admitiu ser incapaz de despoluir a Baa de Guanabara para as provas de vela, agora decidiu mudar o local da disputa de polo aqutico por problemas na reforma do parque aqutico. 
Negcio da Chinas -  As promessas chinesas para o Brasil no cumpridas ou redimensionadas para baixo somaram 24 bilhes de dlares desde 2010, segundo o jornal Folha de S.Paulo. 


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 CMARA
ESTRANHA ONERAO
Foram de arrepiar certas negociaes entre deputados e alguns setores que temem a reduo da desonerao em folha de pagamento, foco de um projeto importante para o governo em meio ao ajuste fiscal. Que o diga o segmento de transportes. Nas conversas, um grupo de deputados do Rio de Janeiro apresentou 15 milhes de motivos para retirar o setor do projeto enviado pelo governo. 

 LAVA-JATO 
O FUTURO DE JANOT 
Barrar a reconduo de Rodrigo Janot ao cargo de procurador-geral da Repblica pode no ser a sada do Congresso para se ver livre dele. Se no tiver os votos suficientes dos parlamentares, ele continuar procurador do MPF, e, pela tradio da Procuradoria, est tudo encaminhado para que continue no caso, como coordenador-geral da Lava-Jato.  

MAIS UMA 
A Engevix se prepara para entrar com pedido de recuperao judicial.  a terceira empreiteira do petrolo a ir s cordas. 

DE NAMORO 
A propsito, os chineses esto namorando a encrencada Engevix. 

 GOVERNO 
A ENERGIA DE CUNHA 
Quem v Eduardo Cunha brigando com o governo nem imagina, mas ele vem trabalhando para nomear um diretor da Aneel, certamente por estar preocupado com a crise energtica do Brasil. No momento, articula a ida do diretor da Aneel Reive Barros para uma diretoria da Chesf. Assim, abre a vaga que ele deseja. 

CHOQUE ELTRICO 
Quem conversa com o ministro Eduardo Braga sai com a certeza de que o presidente e a diretoria da Eletrobras sero eletrocutados em breve. 

HORA EXTRA 
Com frequncia cada vez maior, a jornada de trabalho de Joaquim Levy tem se estendido at as 3 da manh.  

UMA SADA PARA BELTRAME 
Luiz Fernando Pezo tem se empenhado em Braslia para achar algum que o ajude a cuidar do futuro de Jos Mariano Beltrame. Pezo quer construir a sada do mais longevo secretrio de Segurana do Rio de Janeiro e pai das UPPs sem passar a ideia de uma demisso. Quer que Beltrame caa para cima. O ideal seria encontrar na PF ou no governo federal um posto para o secretrio. No ser fcil, ao menos no que depender do prprio Beltrame. Sua vontade de trabalhar em Braslia, ainda mais num governo do PT,  mnima. A disposio de voltar  PF tambm beira zero.  

 PT 
TARSO E Z 
Tarso Genro fez uma visita duas semanas atrs a Jos Dirceu. Tiveram uma conversa sobre o futuro do PT. Falaram de Lula, do petrolo e, claro, de Dilma. Tarso disse ver muito pouco do projeto do PT nos governos de  Dilma e repetiu o que afirma h tempos: para ele, ela  uma pssima gestora. A visita de Tarso pode ser considerada uma exceo. Jos Dirceu vem reclamando de abandono por parte dos velhos companheiros. 

MEDO DE GRAMPO 
A propsito, um precavido Jos Dirceu tem tomado um cuidado especial quando recebe visitas  que tm sido poucas. Pede o celular do visitante e coloca o aparelho em outro cmodo da casa. 

NOVA ESQUERDA 
A formao de uma frente de esquerda no Rio de Janeiro proposta por Tarso Genro teve o aval de Lula.  A posio do movimento contra o PMDB tambm. 

 SENADO 
AQUI, NO 
Renan Calheiros foi  Justia para tentar impedir a Polcia Federal de investigar o Senado e limitar as investigaes criminais  Polcia Legislativa  controlada por ele. O imbrglio comeou em novembro, aps a PF requisitar o processo da licitao do circuito fechado de televiso do Senado, comprado em 2011 por 5 milhes de reais. A direo-geral do Senado j perdeu na primeira instncia da Justia Federal. Agora, apresentou um recurso para tentar impedir a PF de investigar o Senado. 

 FUTEBOL 
BOLA DE OURO 
Executivo bem pago mesmo  Marco Polo Del Nero. O novo presidente da CBF ganha 200.000 reais por ms, o dobro do que recebia, por exemplo, Ricardo Teixeira. 

O DONO DA BOLA 
O So Paulo negocia um acordo com o seu torcedor mais rico para tentar melhorar as finanas do clube  s com bancos sua dvida  de cerca de 150 milhes de reais. O presidente, Carlos Miguel Aidar, tem se reunido com Ablio Diniz. A ideia  que o fantico (e bilionrio) so-paulino ajude a gerir as finanas do clube. Ablio topa, mas s se ganhar poderes de interferir no departamento de futebol. 

 INTERNET 
 VENDA 
O grupo Ongoing est procurando comprador para o iG. 

 PROPAGANDA 
NO TOPO 1 
A Unilever perdeu o posto de maior anunciante do Brasil em 2014. De acordo com o ranking anual feito pelo Meio & Mensagem, que ser divulgado nos prximos dias, a liderana  agora da Via Varejo (Casas Bahia e Ponto Frio), que investiu 1,382 bilho de reais em propaganda. Logo depois, vem o laboratrio mexicano Genomma, que fabrica produtos voltados para as classes C e D, com 1,311 bilho de reais. A lista j leva em conta os descontos dados pelos veculos. NA TV por assinatura, por exemplo, a reduo mdia  de 78% sobre o preo cobrado na tabela.  

NO TOPO 2 
O ranking mostra tambm quais so as maiores agncias de propaganda: pela ordem, as cinco primeiras so Y&R, Ogilvy & Mather, WMcCann, Borghi/Lowe e AlmapBBDO. 

 TELEVISO 
TE CUIDA, GLOBO 
H um incio de namoro entre a Record e a Federao Paulista de Futebol (FPF) em torno dos direitos de transmisso do Paulisto de 2016. 

SRIE DA DISCRDIA 
Azedaram as relaes entre a dupla Jos Padilha e Wagner Moura e a Netflix. Os dois, que filmaram na Colmbia a srie Narcos, que conta a vida do traficante Pablo Escobar, confidenciaram a amigos que no gostaram da interferncia dos americanos na produo dos episdios.


2#7 VEJA ESSA

Nunca na histria deste pas se errou tanto, nem se roubou tanto em nome de uma causa. - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, em pronunciamento durante o programa partidrio do PSDB na televiso, comentando os escndalos de corrupo ocorridos durante os doze anos de governo do PT. 

A beleza  s um detalhe. - GRAZI MASSAFERA, atriz que interpretar uma modelo prostituda e drogada em Verdades Secretas, a prxima novela das 11 da Globo. 

O pedido de impeachment de Fernando Henrique Cardoso estava errado. - ALDO REBELO, ministro da Cincia e Tecnologia, reconhecendo que o PCdoB exagerou ao defender o "Fora FHC", de 1999, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo 

Ol, Twitter!  o Barack. Srio! Depois de seis anos, eles esto finalmente me dando uma conta prpria." - BARACK OBAMA, ao estrear no microblog o espao oficial da Presidncia dos Estados Unidos (@potus, que corresponde s iniciais do cargo em ingls) 

No tenho nada contra religio. Sou a favor de todas, mas no exero nenhuma. S no quero uma religio legislando a minha vida." - MARIETA SEVERO, em entrevista ao jornal O Globo. 

A mim me impactou o linda que ." - MXIMO RAVENNA, mdico argentino, elogiando a presidente Dilma Rousseff (PT), que perdeu 15 quilos seguindo seu mtodo de emagrecimento, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. 

Est aqui (entalado), mas eu no posso falar. Se eu disser, o Barroso me prende. - ROBERTO JEFFERSON ex deputado e delator do mensalo, ao deixar a priso, referindo-se a Lus Roberto Barroso, relator do processo, e a informaes que teria sobre a Operao Lava-Jato. 

A Fifa no  transparente. - LUS FIGO, ex-jogador portugus, que retirou sua candidatura  presidncia da entidade mxima do futebol, em entrevista ao site de VEJA. 

Se eu acho que cairei no ostracismo? Espero que ainda no. - JON HAMM, ator americano, o publicitrio Don Draper da srie Mad Men, cujo ltimo episdio foi ao ar no domingo 17 nos Estados Unidos. 

A sociedade brasileira no  simptica,  uma sociedade que se mata. - MANUEL CASTELLS, socilogo espanhol, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto do vaivm dos estudos cientficos, que agora terminou, ao menos na absolvio definitiva do colesterol ingerido 
Que o teu alimento seja o teu remdio e que o teu remdio seja o teu alimento. 
HIPCRATES (460 a.C.-375 a.C.), grego considerado o pai da medicina ocidental.
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3# BRASIL 27.5.15

     3#1 MENSALO  COMO LULA ESCAPOU DO ESCNDALO
     3#2 SUSPEITAS DE SABOTAGEM
     3#3 O PRXIMO ESCNDALO

3#1 MENSALO  COMO LULA ESCAPOU DO ESCNDALO

1- OS SEGREDOS DO MENSALO
A histria secreta de como o ex-presidente Lula escapou do escndalo de suborno que levou  priso congressistas, empresrios e toda a cpula do PT.
DANIEL PEREIRA

     Na edio de 18 de maio de 2005, VEJA publicou uma reportagem exclusiva sobre um funcionrio dos Correios filmado quando embolsava uma propina de 3000 reais. Era puxado ali o fio da meada do mensalo, o primeiro dos dois esquemas de compra de apoio poltico engendrados no governo do PT. Nos doze meses seguintes, o Congresso esquadrinhou cada pea dessa engrenagem criminosa abastecida com recursos desviados dos cofres pblicos. Os resultados produzidos representaram um ponto fora da curva na tradio de impunidade que beneficia os poderosos. Com base em provas colhidas pela CPI dos Correios, trs deputados tiveram o mandato cassado, quarenta pessoas foram denunciadas pelo Ministrio Pblico e 24 condenadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A antiga cpula petista foi sentenciada  priso. Antes cotado para a sucesso de Lula na Presidncia, Jos Dirceu passou quase um ano atrs das grades numa penitenciria em Braslia. Banqueiros e empresrios ainda esto encarcerados. Os criminosos de punho de renda foram finalmente apresentados ao castigo  no sem antes ouvir uma reprimenda moral histrica. "So eles, corruptores e corruptos, os profanadores da Repblica, os subversivos da ordem institucional, so delinquentes e marginais da tica do poder", disse o decano do STF, o ministro Celso de Mello. 
     Hoje, o mensalo ocupa um papel secundrio no panteo dos escndalos nacionais. Foi superado, em cifras e ousadia, pelo petrolo, mas alguns de seus pontos ainda precisam ser elucidados. O mais intrigante deles  como o ex-presidente Lula se livrou da responsabilidade no caso, se era, em ltima instncia, o principal beneficirio dos votos comprados no plenrio da Cmara. A reportagem a seguir desvenda como Lula escapou do risco de ser apontado como o chefe do mensalo e de responder a um processo de impeachment durante a CPI dos Correios. O sucesso da blindagem ao ex-presidente no decorreu apenas da capacidade de negociao de seus articuladores polticos. O PT negociou o silncio do empresrio Marcos Valrio quando ele  s vsperas da concluso da CPI dos Correios  avisou que acusaria Lula de comandar o mensalo se no recebesse uma ajuda financeira milionria. Um empresrio amigo foi convocado para pagar a fatura e Valrio se recolheu. Lula se livrou da CPI, reelegeu-se em 2006 e foi o efetivo cabo eleitoral de Dilma em 2010. Em 2012, Valrio contou parte de seus segredos ao Ministrio Pblico, tentando um acordo de delao premiada. J era tarde. Lula no podia mais ser includo no processo. O empresrio cumpre uma pena de 37 anos de priso. Definitivamente, no fez um bom negcio. 

2- O SUBORNO
s vsperas da concluso da CPI, o empresrio Marcos Valrio pediu dinheiro ao PT para no envolver Lula no escndalo.

     No incio de 2006, a CPI dos Correios entrava em sua fase decisiva. Comandada pelo senador Delcdio Amaral (PT-MS) e pelo deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), a comisso j havia colhido os dados e os depoimentos que resultaram na cassao do mandato de Roberto Jefferson (PTB-RJ), o delator do mensalo, e de Jos Dirceu (PT-SP), considerado o gerente do esquema. Tambm j havia reunido provas de que o governo do PT usara recursos desviados dos cofres pblicos para subornar parlamentares. O quebra-cabea do mensalo estava quase montado. Faltava apenas uma pea, justamente a mais importante: quem era de fato o comandante do esquema de corrupo? O ex-ministro Dirceu, como diziam as testemunhas, ou o ento presidente Lula, o principal beneficirio da engrenagem criminosa? O relatrio final da CPI dos Correios isentou Lula de responsabilidade. Essa deciso decorreu de duas negociaes de bastidor. Uma delas foi desenhada pela mente brilhante do ento ministro da Justia, Mrcio Thomaz Bastos (veja a reportagem na pg. 45), morto em 2014. A outra, que se manteve secreta por uma dcada, ser narrada a seguir. 
     Em 13 de fevereiro de 2006, dois meses antes da votao do relatrio final da CPI dos Correios, o empresrio Marcos Valrio viajou a Braslia para uma conversa sigilosa com Delcdio Amaral. Os dois se encontraram no apartamento de Cleide Ferreira da Cruz, funcionria da estrita confiana do senador. Delcdio e Valrio dividiram a mesa de jantar, doses de usque, confisses e uma ameaa. Numa conversa que varou a madrugada, o empresrio relatou minuciosamente seus problemas de ordem familiar e empresarial. Estava atordoado. Em meio s queixas, foi assertivo: se o PT no lhe desse uma ajuda financeira, contaria os detalhes do envolvimento direto de Lula no mensalo. O PT teria de comprar o seu silncio. Delcdio costuma brincar que "suporta" os petistas. A recproca  verdadeira, e ele no  nada querido por seus colegas de partido, que o chamam de traidor. Como de costume, a verdade est no meio do caminho. 
     Diante de informaes to preciosas, Delcdio mostrou lealdade a Lula, com quem mantm boa relao at hoje. O senador entrou em contato com Paulo Okamotto, zelador das contas pessoais do ex-presidente, e disse que precisava falar urgentemente com o mandatrio. Horas depois, o ento ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ligou para Delcdio para saber o que tanto o angustiava. Ministro mais poderoso do governo depois da queda de Dirceu, Palocci foi apresentado  chantagem. A roda governista, ento, girou como nunca para impedir que Lula voltasse ao centro do debate. As revelaes de Valrio que espantaram Delcdio reavivariam a possibilidade de um pedido de impeachment contra Lula e tornariam certa sua responsabilizao pela CPI dos Correios. 
     Depois do jantar, Valrio no cumpriu a ameaa nem passou novas informaes  comisso, que aprovou seu relatrio cinquenta dias depois do convescote. Em outubro de 2006, Lula foi reeleito. Sob a proteo do anonimato, um confidente do ex-presidente narra o que aconteceu: "Um dia, um grande empresrio me contou que havia sido surpreendido com um pedido para depositar recursos numa conta no exterior. O dinheiro era para o Valrio". Scio das agncias de publicidade SMP&B e DNA, Valrio j havia ameaado o PT. Foi em julho de 2005, logo no incio dos trabalhos da CPI dos Correios. Na ocasio, avisou que entregaria os crimes do partido e acusaria Lula de chefiar os mensaleiros se no recebesse 200 milhes de reais, alm de ajuda para se livrar de constrangimentos na Justia. Valrio procurou Delcdio sete meses depois da chantagem inicial porque a compensao financeira no flua. O operador manteve silncio at setembro de 2012, quando o STF o condenou por crimes como corrupo e lavagem de dinheiro. Valrio deps e props um acordo de delao premiada ao Ministrio Pblico, que foi negado. Os segredos que sonegou  CPI dos Correios ficaram guardados por muito tempo. 

"SITUAO FINANCEIRA DIFCIL"
Delcdio Amaral exercia seu primeiro mandato de senador quando foi escolhido pelo PT para presidir a CPI dos Correios. O partido tinha certeza de que faria do novato uma marionete e abafaria a investigao. Foi um tiro no p. Sob a batuta dele, a comisso produziu provas que resultaram na cassao do mandato de Jos Dirceu e atestou a existncia do mensalo, mas poupou Lula. O novato caiu em desgraa no PT, porm ganhou crditos com o ex-presidente. 

H dez anos, o senhor, um petista, presidiu a CPI que condenou o PT e a cpula do partido. Como foi essa experincia? 
As presses sempre existiram. Havia uma reao muito forte ao relatrio do deputado Osmar Serraglio, mas tambm havia restries ao PSDB. A virtude da CPI dos Correios foi descontentar os dois lados, o que mostra que ela no foi parcial. Tenho convico de que fui correto na conduo dos trabalhos. 

Alguns petistas choraram ao tomar conhecimento da dimenso do escndalo. O senhor no ficou constrangido? 
No se pode carimbar o PT como o responsvel pelos grandes males da corrupo no pas. Essa  uma grande distoro. Tentam associar o PT a falcatruas e desmandos, mas todos os grandes partidos passaram por problemas parecidos. O prprio mensalo teve origem em Minas Gerais (no governo do PSDB). 

Mas o PT at hoje jura que o mensalo no existiu, que foi uma conspirao. 
No me cabe comentar. A Justia avaliou o processo e j formou opinio. 

Na CPI, o PT no reconhecia a existncia do mensalo. J o PSDB queria responsabilizar o ento presidente Lula pelo esquema de corrupo. Por que petistas e tucanos fracassaram nesses objetivos? 
A madrugada anterior  votao do relatrio final foi o momento de maior tenso em onze meses de trabalho. Houve presso de todos os lados. O relator teve de fazer um trabalho cirrgico, porque tnhamos de conciliar um relatrio consistente e, ao mesmo tempo, capaz de reunir os votos necessrios para a aprovao. Foi feito um grande trabalho de negociao. 

Quem no governo ajudou a CPI dos Correios a aprovar um relatrio que confirmou o mensalo, mas livrou o ento presidente Lula? 
O governo talvez no conhecesse todo o relatrio, mas sabia dos pontos principais. A poltica  a arte do possvel. O ministro Mrcio Thomaz Bastos teve um papel muito importante naquela poca. Alm de muito experiente, era efetivamente o grande articulador poltico. Ele foi o maior protagonista. 

O ex-ministro Jos Dirceu sempre se disse injustiado no processo do mensalo. O senhor concorda com ele? 
No fao juzo das pessoas, mas acho que ele foi vtima do papel que desempenhou na ascenso do PT ao comando do governo federal e, depois, como ministro da Casa Civil. 

Em fevereiro de 2006, o senhor teve uma reunio secreta com o empresrio Marcos Valrio no apartamento de uma servidora do Senado. Qual o tema do encontro? 
Como presidente da CPI, sempre estava aberto ao dilogo. O Marcos Valrio era uma pea-chave na investigao. Tinha de receb-lo. Na conversa, o Valrio falou do sofrimento familiar e dos problemas empresariais. Disse que enfrentava uma situao financeira difcil. Relatei a alguns integrantes da CPI os argumentos apresentados por ele. 

Ele pediu dinheiro? 
Para mim, no. 

O senhor soube se a situao financeira difcil dele foi resolvida? 
No sei lhe dizer. 

3- A AMEAA AO CHEFE
Antes de ser condenado por corrupo, o ex-ministro Jos Dirceu, que sempre jurou inocncia, insinuou que Lula comandava o esquema.

     Ex-chefe da Casa Civil, Jos Dirceu sempre protestou contra as punies que sofreu no processo do mensalo, como a cassao de seu mandato de deputado, em dezembro de 2005, e sua priso, em novembro de 2013. Em linha com a cartilha petista, dizia que o mensalo no existiu e que o PT era vtima de uma conspirao de setores conservadores da sociedade contrariados com o sucesso do primeiro governo popular da histria do pas. Dirceu, que outrora fazia questo de cultivar a fama de todo-poderoso, passou a desfilar no figurino de injustiado. Esse era o discurso pregado para o pblico externo. A amigos, no entanto, Dirceu continua a culpar um outro ator por sua derrocada: o ex-presidente Lula. Antes de ser condenado por corrupo ativa pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Dirceu desabafou com um parlamentar governista: "No era eu quem visitava a Granja do Torto nos fins de semana. O Lula devia  falar das visitas que o Valrio fez  Granja do Torto". 
     Um petista prximo do ex-presidente e do ex-ministro conta uma histria parecida. De acordo com ele, Dirceu sempre falou que Delbio Soares, o ex-tesoureiro petista que protagonizou o mensalo, prestava contas a Lula, e no a ele. Dirceu no s no gostava de Delbio como tentou derrub-lo da funo, para colocar em seu lugar algum quadro partidrio que tivesse mandato parlamentar. Principal responsvel pela profissionalizao do PT e pela mudana de discurso que levou o partido ao comando do pas, Dirceu aceitou calado a cadeia e a perda dos direitos polticos. Jamais se voltou contra o antigo chefe, que lhe prometeu ajuda  e recursos  para desmontar a "farsa do mensalo". Deu em nada. Investigado no escndalo do petrolo, o ex-ministro agora emite sinais de que pode contar o que sabe sobre os dois esquemas de corrupo usados pelo governo para comprar o apoio de partidos aliados. Seus amigos garantem que, se cumprir a promessa, o magoado e abandonado Dirceu vai fritar o antigo chefe. Se no for preso de novo, ele tem planos de se mudar para Portugal com a esposa e a filha mais nova.

4- ACUSAO AO CAPITO
Ex-comandante relata dilogo em que Lula aponta para Dirceu.

     Lula nunca erra, perde uma disputa ou tem conhecimento de fatos desabonadores. Se h erros e fracassos, eles so de responsabilidade do PT. No mensalo, no foi diferente. No livro Minha Travessia, o almirante Roberto Carvalho, comandante da Marinha entre 2003 e 2007, revela como Lula insinuou que Jos Dirceu, o "capito do time", era o responsvel pelo esquema de suborno parlamentar. Em uma conversa no Planalto, o presidente disse: "Eu devia ter tirado o Z quando surgiu aquele primeiro problema". Para o almirante, era uma referncia ao vdeo em que um ex-assessor de Dirceu aparece negociando propina. O almirante registra tambm outra frase de Lula: "Algum dia o Z vai ter de explicar para a sociedade brasileira tudo o que fez". Em pblico, o ex-presidente sempre manifestou solidariedade ao companheiro. Essa atitude de duas caras de Lula animou o almirante a registrar as frases no livro. Disse Carvalho a VEJA: "Esses comentrios diziam respeito a um fato grave que tinha ocorrido no pas. A sociedade brasileira merecia saber disso". 

5- NEGOCIAO
O PT se rendeu ao mensalo para proteger Lula.

     Na madrugada de 5 de abril de 2006, o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) trabalhava na sala dos consultores do Senado para fechar o relatrio final da CPI dos Correios, que seria votado nas horas seguintes. Detalhista, ele no queria deixar brechas para contestaes dos investigados. Rigoroso, fazia questo de registrar no texto as pistas que poderiam ser seguidas pelo Ministrio Pblico para fisgar os peixes grados que escaparam da rede de combate  corrupo da comisso. A construo do relatrio final no foi uma tarefa simples. Durante as investigaes, houve tentativas de sabotagem. Os prprios parlamentares roubaram ou danificaram documentos confidenciais que comprometiam a eles ou a aliados. Bancos enviaram dados de sigilos bancrios desfigurados ou fraudados para atrapalhar a apurao do caso. Naquela madrugada, o trabalho de coleta e organizao das provas j no era o mais importante. Faltava a negociao poltica que permitisse a aprovao do relatrio e o encerramento da CPI. O ambiente no era nada favorvel. 
     O PT j havia anunciado que tentaria derrubar a proposta de Serraglio. O partido no aceitava a afirmao de que o governo comprara apoio parlamentar com dinheiro desviado dos cofres pblicos e defendia a tese de que tudo no passara de um cndido esquema de caixa dois eleitoral. J os tucanos queriam a responsabilizao do presidente Lula  at ento poupado pelo relator  como chefe do esquema. Sob os holofotes da imprensa, essas posies estavam cristalizadas. O dilogo parecia interditado, e o desfecho da comisso, incerto. Havia a possibilidade de o relatrio de Serraglio no ser aprovado, como queriam os petistas. Mas havia tambm a possibilidade de os tucanos conseguirem apoio ao voto em separado que pedia um processo de impeachment contra Lula. Coube ao ento ministro da Justia, Mrcio Thomaz Bastos, com suas pontes privilegiadas no Planalto e no PSDB, desenhar uma soluo. E ela era bastante simples: o governo aceitaria o relatrio de Serraglio, mesmo com o reconhecimento do mensalo, e o PSDB abriria mo da tentativa de envolver o presidente da Repblica. Assim foi feito. O texto de Serraglio foi aprovado por 17 votos a 4. O PT estrilou, mas o Planalto respirou aliviado. "Meu voto em separado serviu de presso para garantir a aprovao pelo menos do relatrio do Serraglio, o que j foi algo extraordinrio diante das circunstncias", diz o senador lvaro Dias (PSDB-PR). 

"COLOCARIAM O 'EXRCITO' NA RUA"
Filiado ao PMDB desde 1981, o deputado Osmar Serraglio nunca integrou o grupo de caciques que comanda o partido nem fez questo de estar sob os holofotes. Foi escolhido para relatar a CPI dos Correios justamente pelo perfil tcnico e discreto. Como os petistas, os peemedebistas pensavam que seria fcil controlar um correligionrio de "segunda linha", como o qualificavam de forma jocosa. Ledo engano. Resistindo a presses e tentativas de sabotagem e manipulao, Serraglio produziu um relatrio de 1880 pginas, cujos dados fundamentaram a deciso do Supremo Tribunal Federal (STF) de condenar  priso os mensaleiros mais clebres. A sentena histrica no alterou o status do parlamentar, que continua como coadjuvante. 

Qual o principal legado da CPI dos Correios? 
Foi a demonstrao de que uma CPI bem-intencionada realmente colhe as provas necessrias para a responsabilizao. Ela no tergiversa. Ela enfrenta, aprofunda a investigao e leva a quem julgar todos os elementos necessrios para a tomada de deciso. Esse grande mrito ns tivemos, tanto que os ministros do Supremo se curvaram  realidade das provas. 

Os polticos aprenderam com as lies do mensalo? 
Quando o pessoal da mais alta posio no governo foi responsabilizado, inclusive um quadro que poderia ser sucessor no comando da Repblica, eu esperava que pelo menos se infundisse o temor. Que pelo menos eles passassem a ter conscincia de que, dali em diante, poderiam ser punidos. O que percebemos no escndalo da Petrobras  que, com a mesma desfaatez, com a mesma certeza de impunidade, a conduta ilcita prosseguiu. Nunca imaginei que viveramos uma situao piorada. 

Foi forte a presso para abafar a CPI dos Correios? 
Vou contar um episdio ilustrativo. Indicaram-me um funcionrio do Senado para trabalhar na produo das provas. Ele me ajudava a colet-las e sistematiz-las. s vsperas da apresentao do relatrio parcial da comisso, esse servidor deixou o trabalho. Tirou frias ou o esconderam, no sei. Tive de produzir o relatrio sozinho. Foi uma casca de banana que colocaram no meu caminho. 

Houve outras cascas de banana? 
Um dia cheguei  comisso e havia em cima da minha mesa um envelope amarelo, com a chamada Lista de Furnas dentro. Como no sabia a origem do material, remeti-o  Polcia Federal. Eles queriam que eu esquadrinhasse a Lista de Furnas para desviar o foco. Era tudo visivelmente falso. Tentaram criar uma cortina de fumaa, mas no conseguiram. 

Por que o ex-presidente Lula, cujo governo se beneficiou do mensalo, no foi includo no rol dos pedidos de indiciamento da CPI dos Correios? 
No relatrio final, eu escrevo que o Lula sabia de tudo. Relato pelo menos trs testemunhos que garantem que ele foi alertado sobre a existncia do esquema. Mas eu no podia responsabiliz-lo objetivamente pelo mensalo. No podia dizer que pelo simples fato de ser o presidente da Repblica devia responder por atos ilcitos de subalternos, at porque, ao tomar conhecimento dos fatos, o Lula mandou averiguar, ao menos segundo os testemunhos. 

Alm desse aspecto tcnico, pesou um ingrediente poltico? 
Eles (os petistas) colocariam o "exrcito" na rua, como j ameaaram, e o pas viveria uma guerra civil. O Lula era muito popular. Havia, sim, medo deles, e eles jogavam e jogam pesado.

6- METAMORFOSE DE CONVENINCIA
As diversas  e contraditrias  verses do ex-presidente para o escndalo que abalou seu governo.

     O ex-presidente Lula j foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, crtico contumaz de autoridades acusadas de corrupo e adversrio figadal de polticos como o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) e o deputado Paulo Maluf (PP-SP). Ao conquistar o poder, abandonou seguidamente suas convices dos tempos de oposio. A mudana, no caso da economia, fez bem ao pas. Ele manteve o receiturio de Fernando Henrique e o equilbrio das contas pblicas. Na seara dos costumes, o bom e velho Lula trocou de figurino sempre com um nico propsito: evitar desgastes pessoais e preservar a prpria imagem. O processo do mensalo  emblemtico dessa f que o petista nutre, como ele mesmo j ressaltou, na ideia de ser uma metamorfose ambulante. Quando o esquema de corrupo comeou a ser desvendado, Lula afirmou que no sabia de nada e se disse trado em rede nacional de rdio e televiso. Por quem? No esclareceu. 
     Reeleito em 2006, ele deixou de lado o discurso segundo o qual o PT incorrera em "prticas inaceitveis" e passou a anunciar uma campanha para desmontar a "farsa do mensalo". Lula continuava como vtima, mas agora dos tais setores conservadores da sociedade. Ao deixar o governo, ele de fato pressionou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a adiar o julgamento do mensalo e absolver seus companheiros. De quebra, ordenou a petistas que usassem a CPI do Cachoeira para constranger Roberto Gurgel, o procurador-geral da Repblica responsvel pela denncia dos mensaleiros. A ofensiva no deu resultado. A antiga cpula do PT foi condenada e presa. Derrotado, Lula recolheu as armas, baixou o tom e passou a dizer que um dia contaria a verdadeira histria do mensalo. Quando? De novo, no esclareceu. No  apenas o ex-presidente que muda. Os escndalos tambm se sucedem. Hoje, a preocupao de Lula  com os rumos do petrolo. Seu amigo Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, disse que doou dinheiro de caixa dois para a campanha  reeleio do petista. O doleiro Alberto Youssef afirmou que o petista sabia da roubalheira na estatal. Lula nega. Alega que no sabia de nada. Logo, logo, poder se dizer trado... 

"O que o PT fez do ponto de vista eleitoral  o que  feito no Brasil sistematicamente. Eu acho que as pessoas no pensaram direito no que estavam fazendo. E no  por causa do erro de um dirigente ou de outro que voc pode dizer que o PT est envolvido em corrupo."
PRESIDENTE LULA, EM JULHO DE 2005

"Quero dizer a vocs, com toda a franqueza, que eu me sinto trado. Trado por prticas inaceitveis das quais nunca tive conhecimento. No tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que ns temos de pedir desculpas."
PRESIDENTE LULA, EM AGOSTO DE 2005

O QUE EU ACHO  QUE NO HOUVE MENSALO."
EX-PRESIDENTE LULA, EM ABRIL DE 2014, DEPOIS DA CONDENAO DOS MENSALEIROS

7- QUADRILHA SEM CHEFE
O caso foi encerrado sem a resposta para o principal enigma.

     O mensalo foi investigado por duas comisses parlamentares de inqurito no Congresso Nacional, pela Polcia Federal e pelo Ministrio Pblico. Depois, foi esquadrinhado em um longo julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que o coroou como o mais importante processo de corrupo j julgado na corte. Uma vez descoberto, o esquema foi esmiuado  exausto. Pela primeira vez na histria, a cpula do partido no poder foi mandada  cadeia. Parlamentares importantes foram enxotados do Congresso Nacional  um avano institucional diante da cultura atvica da impunidade. Mas, ao menos na narrativa oficial, restou uma lacuna: o mensalo passou  histria como um crime sem mandante, uma quadrilha sem chefe, um monumental caso de corrupo comandado por gerao espontnea. O topo do organograma ficou vazio. 
     Sabia-se que o mensalo fora arquitetado para comprar o apoio poltico de congressistas a projetos do governo. At por essa razo,  bvio que o principal interessado no funcionamento do esquema era o Palcio do Planalto. Mas quem, afinal, era o grande beneficirio? Na pea acusatria apresentada ao STF pelo ento procurador-geral da Repblica Antonio Fernando de Souza, j estava estabelecido um "teto" para a cadeia de comando: o esquema atendia aos interesses do Planalto, e ponto. Mas quem era o Planalto? Para o Ministrio Pblico, era o ex-ministro Jos Dirceu, mas nem isso resistiu por muito tempo. O STF condenou Dirceu como chefe da quadrilha. Meses depois, ao julgar os recursos dos rus, a corte reviu a deciso e anulou o crime de quadrilha. Se no havia quadrilha, impossvel haver um chefe. E assim, apesar do grande avano institucional, o enigma continuou sem resposta. 

8- SENTENAS HISTRICAS
Corruptos e corruptores condenados  cadeia.

     Foi um processo histrico. O Ministrio Pblico e o Poder Judicirio resistiram  presso para abafar o mensalo e mostraram ao PT que, mesmo detentor do poder, ele no est acima das instituies democrticas. Foi tambm um julgamento histrico. Durante um ano e meio, o Supremo Tribunal Federal (STF) realizou 69 sesses plenrias, transmitidas ao vivo pela televiso, para condenar 24 mensaleiros e determinar a priso da antiga cpula petista. Polticos poderosos eram finalmente apresentados s barras da Justia. At o ex-chefe da Casa Civil Jos Dirceu, outrora cotado para suceder Lula na Presidncia da Repblica, ficou preso durante um ano na Penitenciria da Papuda, em Braslia. A tradio nacional de impunidade sofria um duro golpe. Alm das penas aplicadas, foi histrica a reprimenda moral dos ministros do STF aos petistas. 
     Em linha com a CPI dos Correios, eles reconheceram a existncia do mensalo e o uso de recursos desviados dos cofres pblicos para corromper parlamentares. Acusaram o PT de atentar contra a democracia e lanar mo da engrenagem criminosa para se perpetuar no poder. A deciso contou com a ampla maioria dos votos de um plenrio composto majoritariamente de ministros indicados por Lula e Dilma Rousseff. O STF tirou dos mensaleiros at mesmo o argumento fajuto de que eram vtimas de uma conspirao de adversrios. Disse o decano Celso de Mello, numa definio lapidar sobre o mensalo, seus atores e seus propsitos: "So eles, corruptores e corruptos, os profanadores da Repblica, os subversivos da ordem institucional, so delinquentes e marginais da tica do poder, so infratores da ordem do Errio e trazem consigo a marca e o estigma da desonestidade.

9- O INCIO E O FIM
O personagem que simbolizou o mtodo de fazer poltica da ltima dcada pensou em se matar.

     Entre o olhar desconfiado e o reflexo de esticar o brao, pegar o mao de notas e enfi-lo no bolso do palet foram exatos trs segundos  o suficiente para desencadear a maior crise poltica do perodo ps-democrtico. Para o ex-diretor dos Correios Maurcio Marinho, o vdeo significaria mais que o fim da carreira de executivo. Na conversa gravada, Marinho deu as linhas gerais do esquema do qual ele era apenas uma ponta. Contou que representava o PTB e que privilegiava algumas empresas em troca de "contribuies" para o partido. Depois das revelaes, o deputado Roberto Jefferson confessou, que aquilo no era um ato isolado. Era uma estratgia do governo. O nome da fraude: mensalo. Dez anos se passaram. Mesmo condenados e at presos, alguns dos envolvidos no escndalo j voltaram a cumprir a antiga rotina em que se misturam poder e dinheiro. Maurcio Marinho no. Sua vida virou do avesso. Foi demitido dos Correios, os amigos sumiram, os parentes se afastaram e ele ainda responde a processo por vrios crimes. Desesperado, chegou a ponto de considerar a hiptese de tirar a prpria vida, o que s no aconteceu graas  converso religiosa. O ex-diretor vive hoje com 3200 reais da aposentadoria do INSS  200 reais a mais do que aparece embolsando na cena que entrou para a histria da corrupo no Brasil. A condenao judicial ainda no veio, mas Marinho reclama que  um preso digital, refm da imagem. Disse o juiz Issamu Shinozaki Filho, respondendo a um pedido dos advogados do ex-diretor, que queriam abolir o vdeo da internet: "As cenas protagonizadas constituem fato pblico notrio, perenizadas inclusive na memria coletiva". Mais que isso. A imagem, revelada por VEJA em maio de 2005, sintetiza um mtodo degradante de fazer poltica que precisa ser punido com rigor e definitivamente exterminado.
HUGO MARQUES

10- PETROMENSALO
H dez anos, uma reportagem de VEJA publicada no auge do escndalo j mostrava o que seriam a gnese do mensalo e suas similaridades com o esquema de corrupo na Petrobras.

     Enquanto o mensalo era desarticulado, um esquema de corrupo ainda maior estava sendo montado com a mesma finalidade  irrigar os bolsos de polticos e os cofres de partidos aliados como forma de manter firme a base de sustentao do governo. O escndalo de corrupo da Petrobras, sabe-se hoje, funcionava desde o incio da dcada passada e desviou mais de 6 bilhes de reais dos cofres da estatal. Esse gigantesco desfalque poderia ter sido evitado? Poderia. Em julho de 2005, uma reportagem de VEJA j fornecia as primeiras pistas daquilo que nos dias atuais  chamado de petrolo. A espinha dorsal do esquema estava descrita no texto. O ex-ministro-chefe da Casa Civil Jos Dirceu aparecia como o responsvel pela indicao de diretores da Petrobras, entre eles um tal Renato Duque, o ex-diretor de servios da estatal, que est preso e  acusado de desviar 200 milhes de dlares para os cofres do PT. 
     A reportagem falava de outra figura desconhecida  o empresrio Augusto Mendona, scio de uma empresa chamada Setal, que enfrentava dificuldades financeiras e precisava de ajuda. Mendona conseguiu o apoio que queria por meio de um contrato de 600 milhes de reais com a Petrobras. O desfecho da histria  conhecido agora. Augusto Mendona foi preso, fez um acordo de delao premiada com a Justia e contou o que sabia, aquilo de que j se desconfiava em 2005. A contrapartida para ganhar os contratos era repassar um percentual dos lucros da empresa ao PT, mais especificamente ao tesoureiro do partido, Joo Vaccari Neto, que tambm est preso. 
     O mensalo e o petrolo faziam parte de uma nica estratgia: a de transformar o domnio sobre os grandes oramentos da mquina federal, com seus contratos polpudos, em um meio de obter dinheiro fcil para o financiamento do projeto de poder do partido e, sempre que possvel, tambm para o enriquecimento pessoal de seus comandantes. No mensalo, o alvo da rapinagem eram os contratos de publicidade de estatais. No petrolo, so os bilhes gastos pela Petrobras em contratos de construo e aluguel de navios e plataformas, obras de refinarias, manuteno de oleodutos e afins. No mensalo, Jos Dirceu foi condenado como o mais proeminente integrante do esquema criminoso. Hoje, cumprindo em casa o restante da pena que lhe foi imposta pelo Supremo Tribunal Federal, ele tambm  investigado no petrolo. Como "consultor", o ex-ministro recebeu pelo menos 8 milhes de reais das empreiteiras que abasteciam o esquema. A quadrilha foi apanhada de novo. Os chefes continuam ocultos. 


3#2 SUSPEITAS DE SABOTAGEM
Procuradores da Repblica desconfiam que grampos na PF do Paran tm o objetivo de tumultuar as investigaes da Operao Lava-Jato.

     A reportagem de capa de VEJA da semana passada mostrou os bastidores de uma guerra entre policiais que ameaa comprometer a Operao Lava-Jato, responsvel por descobrir e desmantelar o esquema bilionrio de desvio de dinheiro da Petrobras. A Corregedoria da Polcia Federal em Braslia investiga agentes e delegados lotados no Paran. Segundo os corregedores, os colegas paranaenses teriam usado mtodos ilegais para obter informaes. Citam como prova dois aparelhos de escuta ocultos em uma cela e no fumdromo da superintendncia. A principal testemunha do caso, o agente Dalmey Werlang, disse em depoimento ter recebido ordens para instalar as escutas sem autorizao judicial. Ocorre que o mesmo agente, em outro documento, informou exatamente o contrrio. Os investigadores da Lava-Jato suspeitam de armao  tese tambm compartilhada pelos procuradores da Repblica. Para eles, est em curso uma ao deliberada para tumultuar as investigaes, que, a cada dia, se aproximam mais de gente poderosa. 
     H uma evidente tentativa de sabotagem, disseram procuradores a VEJA sob a condio de anonimato. O objetivo seria afastar todos os delegados atualmente a servio da Lava-Jato e, com isso, melar a operao. Interessados no faltam  especialmente entre os empreiteiros e os polticos. O mais inquietante  o pano de fundo dessa "operao paralela". Desde o ano passado, o comando da PF vem sendo informado das aes desse grupo que tenta minar a Lava-Jato. Um dos expoentes do grupo, o delegado Jos Alberto Iegas, ocupou at maro o posto de diretor de Inteligncia. Iegas  muito prximo do diretor-geral, Leandro Daiello. Como a reportagem mostrou, enquanto os corregedores enviados por Daiello desembarcavam em Curitiba para investigar a equipe da Lava-Jato, Iegas estava em Braslia conversando sobre o assunto com o prprio Daiello e com o brao-direito do ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo. 
LARYSSA BORGES


3#3 O PRXIMO ESCNDALO
Atrs de votos no Congresso, o governo leiloa cargos aos aliados  e, pela primeira vez, pode-se apontar com rigor matemtico como a prtica gera corrupo.
ANDR PETRY

     A cena  um retrato da m poltica brasileira: o governo precisa de votos no Congresso e, para obt-los, oferece cargos pblicos aos distintos deputados e senadores. H vrios nomes para a negociao: leilo, loteamento, mercado persa, balco, barganha, toma l d c. Aconteceu em governos anteriores, est acontecendo neste exato momento e, considerando a inrcia com que se enfrentam as piores pragas nacionais em Braslia, lamentavelmente acontecer em governos futuros. Nas ltimas trs semanas, batalhando para aprovar o ajuste fiscal, o governo colocou na mesa, segundo clculos modestos, mais de 200 cargos federais. So "cargos de confiana", como so chamados os postos da administrao pblica que podem ser ocupados sem concurso. Sempre se soube que essa m poltica  uma das razes da corrupo. Agora, sabe-se mais.
     H dois tipos de apadrinhados com cargo de confiana: os filiados a um partido poltico e os no filiados. O que se descobriu  que os filiados so mais inclinados  corrupo no exerccio do cargo do que os no filiados, ainda que ambos tenham descolado o emprego pblico pela indicao de um poltico. A descoberta s foi possvel com a pesquisa exaustiva do cientista poltico Srgio Praa, professor da Universidade Federal do ABC. Praa listou 100 rgos federais. Levantou o nmero de cargos de confiana em cada um deles. Depois, checou quantos desses cargos estavam ocupados por filiados. Em seguida, recolheu nos arquivos do jornal O Estado de S. Paulo os casos de corrupo que envolveram cada rgo. Cruzando os dados, descobriu que, quanto maior o nmero de cargos ocupados por militantes partidrios, maior o volume de casos de corrupo. Diz Praa: "O funcionrio filiado tende a preocupar-se mais com os objetivos do dirigente partidrio que lhe deu o cargo do que com a aplicao de polticas pblicas" (veja a entrevista). 
      uma pssima notcia. Com 2 milhes de servidores federais, o Estado brasileiro tem um nmero estratosfrico de cargos de confiana. No ltimo levantamento oficial, divulgado no incio do ano, eram 23.000. Sempre que  confrontado com essa enormidade, o governo tem uma defesa pronta: diz que, dos 23.000 cargos, nada menos que 17.000 esto ocupados por servidores pblicos, gente que fez concurso e tem uma carreira na administrao pblica. Restam, portanto, apenas 6000 cargos preenchidos por gente que chegou por indicao poltica. At parece razovel, mas "apenas 6000 cargos"  um exagero que s a ganncia explica. 
     Com 4 milhes de servidores, o dobro do funcionalismo brasileiro, os Estados Unidos tm 8000 cargos de confiana  e, tambm l, a maior parte deles  ocupada por servidores de carreira e, alm disso, cerca de 1200 postos s podem ser preenchidos mediante aprovao do Senado, o que j consiste numa primeira barreira  pilantragem. No Ministrio da Sade americano, uma das mais vastas estruturas burocrticas do pas, h 550 postos de confiana. No nosso Ministrio da Sade, so 1900. No Ministrio da Defesa americano, que rene a maior fora militar do planeta, h 600 cargos de livre nomeao. No nosso, cujos militares no pegam em armas contra um inimigo externo desde a Guerra do Paraguai, so 800 cargos. H casos mais agudos. No Ministrio do Desenvolvimento Agrrio, que tem mais de 1000 cargos de confiana, instalou-se um populoso ninho petista (veja o quadro). 
     Com a fartura de cargos e a inclinao propineira dos filiados, ningum deve se surpreender com a multiplicao de casos de servidor flagrado arrecadando para o seu partido, para o seu padrinho poltico ou para si mesmo, ou tudo ao mesmo tempo. Os dois maiores escndalos dos governos do PT nasceram justamente em postos ocupados por indicados polticos. O mensalo acabou deflagrado por um servidor do PTB nos Correios. O escndalo na Petrobras teve incio com um indicado do PP na diretoria de Abastecimento da estatal. As sementes do prximo escndalo esto sendo plantadas na atual distribuio de cargos promovida pelo Planalto. 
     Refugiada dos panelaos e exilada da poltica cotidiana, a presidente Dilma Rousseff escalou o vice Michel Temer para desempenhar as funes de distribuidor-geral de cargos da Repblica. Na barganha com deputados e senadores, para cabalar votos em favor do ajuste fiscal, Temer ocupa-se de atender ao apetite dos parlamentares, deixando na retaguarda operacional o ministro Eliseu Padilha, da Aviao Civil, tambm do PMDB. Na sua sala, localizada no 4 andar do Palcio do Planalto, acontece uma romaria diria de parlamentares que chegam para apresentar seus pleitos para cargos de segundo escalo. Padilha, habituado s manhas do fisiologismo, atende todos com a devida ateno. 
     O socilogo Demtrio Magnoli, em entrevista recente ao programa Roda Viva, da TV Cultura, queixou-se de que os partidos de oposio, em vez de ficar ocupados em descobrir uma brecha para pedir o impeachment de Dilma, deveriam aproveitar para propor um conjunto de leis que limpasse o Estado desse tipo de mazela. Na campanha presidencial do ano passado, o senador Acio Neves, do PSDB, acusou o PT de preencher os cargos de confiana "sem qualquer critrio" e afirmou que pelo menos um tero dos postos era "dispensvel". Derrotado nas urnas, no tocou mais no assunto. Entre 2400 cargos de confiana preenchidos por militantes em 24 ministrios, quase 10% dos servidores so tucanos (veja a tabela). 
     O PT tem o maior nmero de servidores em cargos de confiana, com uma distribuio suspeita. Os petistas amontoam-se na pasta do Desenvolvimento Agrrio, mas quase desertaram de duas reas do governo Dilma: a social e a econmica. No Ministrio da Fazenda, o nmero de filiados do PT e do PSDB  praticamente o mesmo. Para conseguir um cargo de confiana na rea social, na qual se inclui o festejado Bolsa Famlia, ser filiado ao PT no  um bom carto de visita, por incrvel que parea. H duas explicaes possveis: ou o governo no encontra talentos confiveis dentro do PT para o social e o econmico, ou os petistas preferem reas menos relevantes para testar suas heterodoxias.  
     Com o PT bem assentado nos seus postos e a oposio sempre to distrada, o PMDB faz a cena de levantar a voz contra o loteamento. Um dos mais indignados  o presidente do Senado, Renan Calheiros: "O PMDB no pode transformar a coordenao poltica em uma articulao de recursos humanos para distribuir cargos e boquinhas". (O senador emplacou h pouco a nova assessora do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.) O vice Michel Temer tambm anda revoltado com "os costumes polticos", pois ningum leva a srio princpios programticos. (Temer  o "coordenador da boquinha" de quem Renan vem reclamando.) Outro peemedebista preocupado  o deputado Eduardo Cunha. Em vez de atacar o problema dos cargos de confiana, Cunha insiste em reduzir o nmero de ministrios.  o alvo errado. Como se sabe desde o governo Collor, pouco ministrio no significa pouco cargo. 
     O pior  que vai ficar pior. At o ano passado, o Palcio do Planalto tinha duas armas potentes no seu arsenal: os cargos de confiana e as verbas das emendas oramentarias dos parlamentares, duas conhecidas fontes de corrupo. Com a aprovao do "oramento impositivo", que torna obrigatria a liberao das verbas, ao governo s restaram os cargos para colocar no balco. No ano passado, quando aprovaram o oramento impositivo, os parlamentares diziam que queriam se libertar da humilhao de ser chantageados pelo governo, pois somente conseguiam suas verbas em troca de voto. Seguindo o mesmo raciocnio, os parlamentares bem que poderiam tambm cortar drasticamente os cargos de confiana, livrando-se de outra humilhao chantagista imposta pelo governo. Mas, por alguma razo, parece que essa humilhao no incomoda tanto os distintos deputados e senadores. 

RAIZ DA CORRUPO
Quando os cargos de confiana so ocupados por alto porcentual de filiados a partidos polticos,  maior o nmero de escndalos de corrupo. Quando h poucos filiados, os escndalos so perto de zero.

MARINHA
Nmero de escndalos: ZERO
Percentagem de filiados: 4,8%

RELAES EXTERIORES
Nmero de escndalos: 3
Percentagem de filiados: 5%

AERONUTICA
Nmero de escndalos: ZERO
Percentagem de filiados: 5,5%

ESCOLA NACIONAL DE ADMINISTRAO PBLICA
Nmero de escndalos: ZERO
Percentagem de filiados: 6,3%

EXRCITO
Nmero de escndalos: ZERO
Percentagem de filiados: 7,3%

FUNDAO OSWALDO CRUZ
Nmero de escndalos: ZERO
Percentagem de filiados: 8%

SUPERINTENDNCIA DE SEGUROS PRIVADOS
Nmero de escndalos: ZERO
Percentagem de filiados: 8,3%

DEFESA
Nmero de escndalos: 1
Percentagem de filiados: 8,6%

INMETRO
Nmero de escndalos: ZERO
Percentagem de filiados: 8,6%

COMISSO DE VALORES MOBILIRIOS
Nmero de escndalos: 1
Percentagem de filiados: 8,8%

Nos dez rgos federais cujos cargos de confiana apresentam os menores porcentuais de filiados (de 4,8% at 8,8%), os escndalos de corrupo so raros.

Nos cinco rgo federais que concentram o maior nmero de escndalos de corrupo (262 ao todo),  alto o porcentual de filiados em cargos de confiana

TRANSPORTES
Nmero de escndalos: 38
Percentagem de filiados: 11%

SADE
Nmero de escndalos: 95
Percentagem de filiados: 14%

TRABALHO
Nmero de escndalos: 36
Percentagem de filiados: 19%

INCRA
Nmero de escndalos: 45
Percentagem de filiados: 22%

SUDAM
Nmero de escndalos: 48
Percentagem de filiados: 22%

Fonte: "Political appointments and coalition management in Brazil, 2007-2010", de Srgio Praa, Andra Freitas e Bruno Hoepers

O NINHO PETISTA
O Ministrio do Desenvolvimento Agrrio tem 1009 cargos de confiana, dos quais 242 so ocupados por funcionrios filiados a um partido poltico  o PT, de longe, abocanhou o maior quinho.

Trs partidos de oposio somam 22 cargos de confiana.
Oito partidos aliados somam 59 cargos de confiana.
Sozinho, o PT tem 161 cargos de confiana 
Fontes: Srgio Praa e Wesley Seidel, com base em dados do TSE e do Portal da Transparncia do governo federal. Outubro de 2014.

FOLIA GERAL
Confira a distribuio partidria nos quase 2400 cargos de confiana em 24 ministrios cujos ocupantes so filiados a alguma legenda. O PT  o campeo disparado, mas at os partidos de oposio conseguiram sua boquinha
BASE ALIADA 
PSD 20
PR 92
PCdoB 99
PTB 120
PARTIDO PROGRESSISTA 150
PDT 211
PMDB 330
PT 815

OPOSIO
PPS 72
PSB 111
DEMOCRATAS 137
PSDB 219
Fontes: Srgio Praa e Wesley Seidel, com base em dados do TSE e do Portal da Transparncia do governo federal. Outubro de 2014.

A SOLUO  TRANSPARNCIA
No doutorado pela Universidade de So Paulo, o cientista poltico Srgio Praa, 34 anos, estudou "corrupo e oramento". No ps-doutorado, na Fundao Getulio Vargas, ocupou-se de "burocracia e cargos de confiana". Tornou-se, assim, um especialista nas engrenagens que engendram a corrupo no governo federal. Sua entrevista: 

Os cargos de confiana so um convite  corrupo?
Em qualquer pas democrtico, os cargos de confiana so um instrumento para concretizar polticas pblicas e, tambm, para a corrupo. O Brasil tem uma quantidade relativamente grande de filiados a partidos polticos ocupando esses cargos, e isso abre mais espao  corrupo. O funcionrio filiado tende a preocupar-se mais com os objetivos do dirigente partidrio que lhe deu o cargo do que com a aplicao de polticas pblicas. Por isso, sem dvida, o cargo de confiana  uma das principais posies de poder para fazer corrupo. 

Como se pode mudar esse quadro? 
Com transparncia. No caso da administrao direta, at existe transparncia. Sabemos onde esto os cargos de confiana, quem so seus ocupantes e quanto ganham. E os mecanismos de controle esto funcionando, como a Controladoria-Geral da Unio e a Polcia Federal. O problema est nas estatais. Ali, a transparncia  zero. As estatais no so afetadas pela Lei de Acesso  Informao. Elas so pblicas na hora de receber dinheiro, mas so privadas na hora de prestar informaes. Por isso, ningum sabe quantos cargos de confiana h no mbito das estatais. S existe chute. A reduo do nmero de cargos de confiana tambm  uma alternativa para mudar esse quadro. H casos em que  visvel o excesso de cargos, como no Ministrio do Desenvolvimento Agrrio, no qual o PT criou muitas posies desde 2003. Mas aplicar um corte linear aos cargos de confiana  insensato.  preciso estudar caso a caso. No  desejvel que o governo perca sua condio de atrair bons talentos do mercado. 

O uso poltico dos cargos de confiana sempre foi abusivo? 
Nos governos de Lula e Dilma, os dados esto acessveis, mas no se conhecem os dados exatos sobre cargos de confiana no governo FHC. De modo que uma comparao precisa  impossvel. Mas  evidente que o PT ocupou cargos com voracidade. E o uso poltico dos cargos muda segundo o momento. Hoje, os partidos esto mais pulverizados do que na era FHC. Antes, o governo negociava com o lder de trs ou quatro partidos. Agora, a fila  interminvel. Mas o fator mais relevante foi a aprovao no ano passado do chamado oramento impositivo, que, entre outras coisas, obriga o governo a liberar as verbas das emendas parlamentares. Assim, a barganha entre o governo e o Congresso ficou praticamente restrita  distribuio de cargos, quando antes tambm se negociava com verbas oramentarias. No   toa que o governo est paralisado e virou refm do PMDB. Nunca houve tanta presso por cargos. 

A corrupo via cargos de confiana mudou? 
Nos ltimos vinte ou trinta anos, o grosso da corrupo saiu dos ministrios e migrou para as estatais, em que, como j disse, a transparncia  zero. Com essa opacidade toda, as oportunidades de corrupo se ampliaram nas estatais. No  casual que o escndalo do momento tenha ocorrido na Petrobras. No mnimo, as estatais deveriam estar submetidas  Lei de Acesso  Informao, mas nem isso acontece. 
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4# ECONOMIA 27.5.14

EU AJUSTO, VOC PAGA
Incapaz de fazer cortes nos gastos do governo, Levy aumenta impostos. Na Inglaterra, a receita  inversa.  fcil adivinhar quem fez a coisa certa.
MARCELO SAKATE

     Vencidas as eleies que sacramentaram a maior vitria do Partido Conservador em mais de duas dcadas, o ministro das Finanas do governo britnico, George Osborne, anunciou um plano para reforar a capacidade de crescimento do pas. As medidas incluem a maior privatizao de ativos pblicos da histria da Inglaterra, bem como o estmulo ao investimento privado, por meio da diminuio da burocracia e da tributao sobre as pequenas e mdias empresas. A ordem de corte de despesas na maior parte dos ministrios foi reforada, e a meta  que, at 2020, os gastos pblicos recuem ao menor nvel em oitenta anos. "Deixem-me ser claro: aumentar a produtividade da economia  o caminho para elevarmos o padro de vida de cada indivduo deste pas", disse Osborne na semana passada. "Nossa prosperidade futura depende disso." A economia inglesa deixou a crise para trs e cresceu 2,4% no primeiro trimestre em relao ao mesmo perodo de 2014. A taxa de desemprego caiu para 5,5% e est em trajetria de queda. Osborne sabe que a retomada ser duradoura apenas se o setor privado ampliar os investimentos. Outros pases europeus, como a Espanha e a Itlia, tambm passam por reformas cujo objetivo central  reduzir o peso do custo da mquina pblica sobre a economia. 
     Enquanto os europeus miram o futuro e procuram maneiras para ampliar a sua produtividade e, assim, manter a relevncia no cenrio internacional, o Brasil mira o passado. O plano de ajustes do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ainda em rduo processo de implantao, tenta em primeiro lugar reverter os equvocos dos anos anteriores. A meta primordial  estancar o desequilbrio crescente na contabilidade pblica entre receitas em queda e despesas cada vez maiores. Trata-se de um objetivo nobre. "Os mais pobres so os que mais sofrem com a indisciplina fiscal", reforou a diretora-gerente do Fundo Monetrio Internacional, a francesa Christine Lagarde, em visita ao Brasil na semana passada. Isso porque o descontrole dos gastos pblicos alimenta a inflao, cujos efeitos so mais nocivos para quem ganha menos. Alm disso, ele limita a capacidade de o Estado bancar programas sociais e investir em sade e educao. Uma lio conhecida, mas que o governo insistiu em ignorar nos ltimos anos. Dilma Rousseff relegou as reformas que reforariam as bases para o futuro, como as feitas na Inglaterra. Pior, pisou no acelerador dos gastos pblicos e foi leniente com a inflao. Agora, em meio a uma conjuno menos favorvel ao pas, chegou a hora de pr a casa em ordem. 
     A batalha travada pelo Brasil, hoje, limita-se a impor medidas paliativas, e ainda assim com grande dificuldade. Quase sempre, o governo precisa fazer concesses e v os efeitos de suas iniciativas serem reduzidos. Foi o caso das novas regras para a concesso do seguro-desemprego e do abono salarial. Ao mesmo tempo, surgem sempre presses de gastos adicionais. Avana no Congresso a tramitao de um projeto que concede reajuste salarial de at 79% a servidores do Judicirio. O impacto estimado  de 26 bilhes de reais em quatro anos. 
     A situao de aperto leva o governo a apelar para duas estratgias que deprimem ainda mais a economia: o corte dos investimentos pblicos, em reas como infraestrutura e construo residencial, e o aumento de tributos. So medidas que no dependem do Congresso, como elevar a taxao sobre o lucro de bancos e outras instituies do setor. Com a carga extra de tributos e a reduo de subsdios, o caixa federal ter um reforo de 41 bilhes de reais neste ano. A conta, naturalmente, ser bancada pelos contribuintes, em uma grande socializao dos prejuzos causados pelo prprio governo. 
     O pas, ao fim, fica preso ao crculo vicioso do baixo crescimento e da inflao elevada. Resume Ilan Goldfajn, economista-chefe do Ita Unibanco: " necessrio diferenciar medidas de ajuste de reformas. As primeiras servem para corrigir as distores criadas nos ltimos anos e ajudam na recuperao da credibilidade", diz Goldfajn. "O que preocupa so as dificuldades para levar adiante as reformas, essenciais para restaurar a capacidade de crescimento do pas." 

A CONTA DO AJUSTE
Boa parte do reequilbrio no oramento federal ser paga pela populao, na forma de aumento de impostos e reduo de benefcios
(em reais)
Corte de gastos 44 bilhes
Aumento de impostos 41 bilhes
Corte de investimentos 19 bilhes
Reduo de benefcios sociais 12 bilhes
Fontes: Ita Unibanco, Tesouro e Receita Federal
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5# GERAL 27.5.15

     5#1 GENTE
     5#2 POLCIA  ESCOLA DO CRIME
     5#3 POLCIA  NEGCIOS  PARTE
     5#4 ESPECIAL  AMOR ETERNO PELO COLESTEROL

5#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Thas Botelho

SEM DESCER DO SALTO
O Festival de Cannes foi como um daqueles bailes funk proibides: mulher bonita com isso e aquilo  mostra, mo boba no salo e muita gente achando bom burlar as regras de elegncia. Desde que Cannes  Cannes, black tie  o traje masculino exigido  o que, no caso feminino significa vestido de noite e salto alto. A grita das convidadas indignadas que, por estarem de rasteirinha, foram barradas no tapete vermelho no tinha, portanto, razo alguma. O nico exagero foi com relao a uma produtora que, quatro vezes impedida de entrar, precisou mostrar que tinha parte do p amputada. NATALIE PORTMAN obedeceu ao protocolo, mas protagonizou outra forma de ousadia: a calcinha  mostra sob o vestido. Pela primeira vez ela escreveu, dirigiu e atuou em um filme, Uma Histria de Amor e Trevas, baseado num livro de Ams Oz, israelense como ela. JANE FONDA, que recentemente revelou que fuma maconha todo dia, foi mostrar seu filme Juventudo e, no clima, investiu na poupana do colega HARVEY KEITEL. As selfies estavam proibidas por serem ridculas, segundo o diretor do festival. PARIS HILTON, acompanhada do ator SUN ZU YANG, claro, desobedeceu ao veto.

ESTA, SIM,  A DAMA DE FERRO
H cinco anos a primeira-dama MICHELLE OBAMA encabea uma campanha para que os americanos se exercitem. Para dar realismo  causa, j contou que acorda entre 4h30 e 5 da manh para malhar, perambula pelas escolas do pas participando de gincanas e, na semana passada, jogou na internet um vdeo em que treina, acompanhada do personal trainer da famlia, Cornell McClellan (o mesmo que, tempos atrs, informou que o presidente Barack Obama, outro malhador disciplinado, "tem um abdmen tanquinho"). Michelle aparece levantando peso, pulando corda e atacando um saco de pancadas. A moda dos lderes ativos j chegou por aqui: Dilma Rousseff perdeu 15 quilos e at comprou uma bicicleta, de metal preto, na qual anda dia sim, dia no. Ao contrrio dos Obama, porm, suas pedaladas so escondidinhas.

A PRINCESA LATINA
A estudante de artes cnicas DAYANNA MAIA, 19,  a segunda filha do cantor Latino. Com ela, a prole do astro chega a incrveis nove filhos, a maioria descoberta de um ano para c, com nove mes diferentes. "Tenho contato com trs irmos. Os outros, conheo s pelas redes sociais", diz Dayanna, filha de uma ex-namorada do cantor e nomeada assim em homenagem  princesa Diana. Alm de se dedicar  faculdade, a carioca acaba de entrar para o time de uma agncia de modelos, a contragosto do pai, que queria que ela estudasse administrao. "Ele se mudou agora para So Paulo. Vou sentir falta dele e do Twelves, meu outro irmozinho", brinca Dayanna sobre um macaco de estimao de Latino, que ele tambm  chama de filho. 

UMA LIO PARA TODO MUNDO
GUILHERME MURRAY, 12, campeo sul-americano de espada e bicampeo brasileiro de florete, duas armas da esgrima, viaja em outubro para o Azerbaijo para receber um dos prmios mais significativos de sua carreira: o que laureia sua honestidade. O Comit Internacional para o Fair Play, reconhecido pelo Comit Olmpico, vai homenagear o pequeno paulistano por um jogo do ano passado em que ele avisou ao juiz que no havia tocado no adversrio com seu florete, ao contrrio do que o rbitro imaginava ter visto. Por esse aviso, perdeu um ponto decisivo e foi eliminado do campeonato panamericano. Se Guilherme se arrepende desse ato? "No. Fiz de impulso, mas foi certo." Se ele ganhou admiradoras na escola? "Tambm no. No sou popular", brinca. 


5#2 POLCIA  ESCOLA DO CRIME
Pesquisa de VEJA comprova que os bandidos no Brasil saem da cadeia muito mais perigosos do que quando entraram: o estelionatrio vira traficante; o contrabandista, sequestrador; e o ladro, assassino  como ocorreu com o menor H.A.S., que passou treze vezes por instituies do Estado antes de ser acusado de matar a facadas o mdico Jaime Gold, no Rio.
KALLEO COURA

     Na manh de 26 de novembro de 1989, Jlio Csar Guedes de Moraes, de 18 anos, aproximou-se do Porsche azul parado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta e, arma em punho, mandou que o motorista lhe entregasse o Rolex de ouro que levava no pulso. A vtima, um executivo, passou-lhe o relgio, mas, assim que o bandido se afastou, gritou: "Pega ladro!". O ladro chegou a atirar, mas a polcia apareceu e o prendeu. Moraes passou oito meses na cadeia at conseguir fugir. Voltou a roubar, assaltou bancos e acabou preso novamente. Em 1993, quando dividia pela quarta vez uma cela abarrotada de criminosos de todos os calibres, entrou para uma faco criminosa recm-criada. Fugiu, foi preso outra vez e, em 1995, assassinou trs detentos a golpes de faca junto com catorze comparsas. Em 2002, depois de uma sangrenta troca de comando na faco, Jlio de Moraes, o ladro que havia sido preso pela primeira vez ao tentar roubar um relgio, j tinha outro nome e outro status: era Julinho Carambola, o segundo homem do PCC, a faco criminosa que domina os presdios de So Paulo e  qual se atribui a morte de centenas de homens, dentro e fora das cadeias. 
     A transformao de Moraes em Jlio Carambola  um exemplo extremo de como o sistema penitencirio brasileiro  capaz de piorar os que nele desembarcam. Durante dois meses, VEJA analisou os 1306 processos de execuo penal dos criminosos mais perigosos de So Paulo, encarcerados na Penitenciria 2 de Presidente Venceslau e na Penitenciria 1 de Avar. De cada dez detentos, nove cometeram crimes repetidas vezes  os chamados reincidentes. O que a anlise da sequncia e da natureza desses delitos revela  impressionante: trs em cada quatro reincidentes cometeram crimes mais graves a cada priso. Em outras palavras, o que o levantamento indica  que um bandido quase sempre sai da cadeia mais perigoso do que quando entrou. Que um estelionatrio vira um traficante; um contrabandista, um sequestrador; um ladro, um assassino. 
     Para analisar essa evoluo, a reportagem se baseou em trs critrios: crimes contra a vida so mais graves que aqueles contra o patrimnio; crimes com penas mais altas so mais graves que aqueles com penas menores; e, em caso de prises pelo mesmo crime, uma diferena de escala tambm torna o crime mais grave  uma priso por posse de 2 quilos de maconha foi considerada "mais grave" que outra por posse de 200 gramas, por exemplo. No Brasil, a letalidade de um criminoso avana quanto mais ele passa por instituies cuja finalidade  cont-la. E esse processo pode ter incio bem antes da maioridade, como mostra a histria do adolescente H.A.S. 
     H.A.S. inaugurou sua ficha corrida quatro dias depois de completar 12 anos. Desde ento, foi apreendido treze vezes e chegou a ficar quarenta dias sob a guarda do Estado em centros conhecidos como de "socioeducao". Entre apreenses e solturas, colecionou dezessete ocorrncias criminais, sendo a seguinte sempre mais grave que a anterior. Na primeira, desarmado, roubou um celular e 10 reais. Na terceira, j ameaou a vtima com uma faca  levou dela outro celular e 350 reais. Seguiram-se algumas apreenses por posse de drogas, danos a propriedade e mais roubos. No ltimo dia 19, H.A.S. e um comparsa seguiram numa bicicleta o mdico Jaime Gold, de 56 anos, que pedalava na ciclovia da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Segundo testemunhas, eles teriam se aproximado do mdico, esfaqueando-o; como ele no desmontasse imediatamente, golpearam-no quatro vezes. Gold caiu, sangrando e segurando o abdmen, vsceras  mostra. H.A.S. e o comparsa fugiram levando sua bicicleta, carteira e celular. Gold morreu na manh seguinte. 
     Os centros de "socioeducao" como aqueles em que H.A.S. ficou internado so reprodues em menor escala das prises brasileiras: comportam infratores de todos os nveis, esto sempre superlotados e abrigam faces criminosas violentas. Essa ltima caracterstica , para especialistas ouvidos por VEJA, um dos principais motivos a explicar o fato de as cadeias brasileiras terem se transformado em mquinas de aperfeioar bandidos. 
     No Brasil, que possui a quarta maior populao carcerria do mundo, 581.000 detentos se amontoam num espao onde caberiam 348.000   mais ou menos como colocar oito pessoas dentro de um Fusca e deix-las l anos a fio. Um exemplo extremo dessa situao  a penitenciria de segurana mxima Romeu Gonalves de Abrantes, em Joo Pessoa. Uma inspeo feita h trs anos encontrou celas ocupadas por at 120 homens amontoados uns em cima dos outros, sem cama e com poas de urina e fezes espalhadas pelo cho. Na cela da "disciplina", onde esto os presos ameaados de morte ou que cometeram alguma falta dentro da cadeia, os detentos viviam nus, sem colcho, lenol nem banho. Mesmo em So Paulo, o estado mais rico do pas e tambm o que mais prende, 60% dos encarcerados relatam que falta at gua para beber. 
     E  nesse cenrio que viceja o poder de atrao das faces criminosas. Para um condenado no Brasil, aliar-se a um grupo de bandidos que detm o domnio da cadeia pode ser o nico caminho para uma vida um pouco menos desgraada. Dependendo do lugar, ser ou no membro de uma faco pode significar a diferena entre dormir no cho e no colcho, comer e passar fome  em ltima anlise, viver e morrer. "Com a ausncia do Estado, o poder paralelo toma conta. Na falta de um tratamento adequado, os presos primrios so socializados pelo prprio crime e passam a partilhar as crenas e os valores do grupo que lhes estendeu a mo ali dentro", diz o especialista em segurana pblica Alexandre Rocha. Na cadeia, os integrantes do PCC raramente so incomodados por outros presos e contam at com a ajuda de cestas bsicas para a famlia. Assim, o criminoso amador que entra para a faco ganha regalias e proteo, alm de aprofundar sua intimidade com o crime e com os criminosos profissionais. 
     Uma srie de estudos conduzidos pelo criminologista americano David Bierie no Estado de Maryland mostrou como as condies da cadeia interferem no comportamento futuro dos presos. Ele provou que os detentos que passaram pelas piores instituies do estado tiveram 40% mais condenaes do que seus colegas de perfil similar que estiveram em penitencirias mais bem administradas. "Ambientes mais organizados e limpos, onde os prisioneiros so tratados com profissionalismo pelo corpo tcnico, fazem com que eles se engajem mais nos programas de recuperao", diz Bierie. 
     Desde o sculo XVIII, o mundo civilizado desvencilhou a ideia da punio do desejo de vingana. Da parte do Estado, preconizou o criminologista italiano Cesare Beccaria (1738-1794), a punio deve limitar-se  sua funo social  de desestimular a reincidncia, por meio de penas claras, precisas e justas. O que impede o delito, escreveu Beccaria, no  a crueldade das punies. "A maior possibilidade de ser pego provoca um efeito dissuasivo muito maior nos criminosos do que qualquer  aumento de pena, por exemplo", afirma o americano Daniel Nagin, ganhador do Prmio Estocolmo de Criminologia. Nesse sentido, a audcia e a letalidade crescentes dos bandidos no Brasil no surpreendem. "A taxa de resoluo de crimes no pas  muito baixa comparada  de outros pases.  preciso aumentar a eficcia das investigaes e da polcia", afirma Nagin. 
     O criminoso brasileiro sabe que, se no for preso em flagrante, dificilmente  ir para a cadeia; se for, cumprir uma pena baixa; e, se tudo der errado e a punio for severa, ser grande a chance de ele escapar. Uma pesquisa feita no Rio de Janeiro ajuda a dimensionar o problema: dos 3167 assassinatos cometidos em 2005 em que no houve priso em flagrante, apenas 3,5% chegaram  Justia quatro anos depois. Nos Estados Unidos, o assassino  condenado em 65% dos casos. Na Frana e no Reino Unido, essa taxa ultrapassa os 80%.  
     Ao jogar seus presos em masmorras medievais, o Brasil aumenta a probabilidade de despejar nas ruas bandidos mais perigosos, mais organizados e mais dispostos a roubar, matar e sequestrar. S em So Paulo, mais de 110.000 criminosos retornam ao convvio social a cada ano  boa parte deles diplomada com louvor. 

MAIS PERIGOSOS, ORGANIZADOS E LETAIS
VEJA analisou 1306 processos de duas penitencirias de segurana mxima em So Paulo: trs em cada quatro reincidentes cometeram crimes mais graves que na primeira vez.
COMETERAM ASSASSINATO
Na primeira vez em que foram presos 0,8%
Depois que passaram pela priso 30%

ROUBARAM E MATARAM
Na primeira vez em que foram presos 0,7%
Depois que passaram pela priso 14,4%

SEQUESTRARAM
Na primeira vez em que foram presos 0,1%
Depois que passaram pela priso 14%

TRAFICARAM
Na primeira vez em que foram presos 12%
Depois que passaram pela priso 39%

TRAGDIA NO CARTO-POSTAL - O mdico Jaime Gold, de 56 anos, pedalava na Lagoa Rodrigo de Freitas todo fim de tarde. No dia 19, segundo testemunhas, H.A.S., de 16 anos, e um comparsa estariam de bicicleta quando se aproximaram dele e o esfaquearam por trs. Como o mdico no desmontou imediatamente, foi golpeado mais e mais. Gold caiu, sangrando e segurando o abdmen, vsceras  mostra. H.A.S., que j havia sido apreendido treze vezes antes disso, fugiu com o outro suspeito, levando a bicicleta, a carteira e o celular do mdico, que morreu na manh seguinte

DO ROUBO AO ASSASSINATO - Daniel de Paula Celeste j tinha passado duas vezes pela priso, a primeira em 2007 e a segunda em 2011. Dois meses depois de ser solto pela segunda vez, matou o estudante universitrio Felipe Ramos de Paiva, de 24 anos, no estacionamento da USP, tudo porque o jovem no entregou o dinheiro que tinha sacado no caixa. Agora, foi condenado a vinte anos.

DE LADRO A CHEFE DE QUADRILHA - A morte da dentista Cinthya Magaly de Souza, de 47 anos, em abril de 2013, chocou o Brasil: irritados com o fato de ela ter apenas 30 reais na conta, os bandidos atearam fogo na mulher.  frente desse crime estava Thiago de Jesus Pereira, um ladro que entrou na cadeia pela primeira vez em 2006, por assalto a mo armada. De volta s ruas, ele virou lder de uma quadrilha especializada em roubo a consultrios. Em 2014, foi condenado a 37 anos de priso pela morte de Cinthya.

VTIMA DA LETALIDADE PROGRESSIVA - Scia do restaurante Guimas, no Baixo Gvea, no Rio de Janeiro, Maria Cristina Mascarenhas foi morta em julho de 2014, quando saa de um banco a poucas quadras dali, durante uma tentativa de assalto. O criminoso que deu o tiro, Jardel Wanderson de Oliveira, j tinha ido para a cadeia por roubo, em 2008  como ele, trs em cada quatro bandidos estudados por VEJA cometeram crimes mais graves depois de passar pela priso 

CARAMBOLA NO COMANDO - Faz quase uma dcada que Jlio Csar Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, est atrs das grades de uma penitenciria de segurana mxima no interior de So Paulo. O PCC, faco que ele comanda ao lado de Marcos Herbas Camacho,  est presente em 22 das 27 unidades da federao do Brasil. Depois das ondas de violncia de 2006 e 2012, quando criminosos ligados ao grupo mataram mais de 100 policiais em So Paulo, a faco silenciou, mas continua atuante. "Eles esto mais estruturados, mais sofisticados e focados no trfico de drogas, um crime de alto retorno e de menor risco, diz o procurador Mrcio Srgio Christiano. O faturamento anual  estimado em 120 milhes de reais. Para especialistas, so grupos como o PCC que ajudam a fazer das cadeias mquinas de aperfeioar bandidos.

DO PADRO BRASILEIRO AO NORUEGUS EM UMA DCADA
Um pas latino-americano com problemas similares aos do Brasil est conseguindo resultados surpreendentes em suas cadeias. Em 2003, a Repblica Dominicana, seguindo regras sugeridas pelas Naes Unidas, comeou a remodelar seu sistema prisional, da gesto ao tratamento dos presos. Doze anos depois, as mudanas resultaram numa reduo de custos (hoje, um preso l custa em torno de 1000 reais por ms, contra 1800 reais, em mdia, dos detentos brasileiros) e numa queda dramtica da reincidncia. "Foi uma iniciativa nica no mundo", diz o pesquisador britnico Andrew Coyle, do Centro Internacional de Estudos Penitencirios. Assim que chega, o novo preso passa por uma avaliao de aptides. "Nossa poltica  de cio zero", explica Ysmael Paniagua, diretor da Escola Nacional Penitenciria. Os analfabetos aprendem a ler e a escrever em seis meses, e nove de cada dez habilitados fazem curso universitrio dentro da priso (no Brasil, apenas 20% dos presos trabalham e 10% estudam). Os agentes, todos civis, ganharam um plano de carreira e recebem treinamento por um ano. Hoje, as novas prises dominicanas j abrigam metade dos presos do pas, e a taxa de reincidncia criminal  prxima de 5% - quase padro noruegus. A ideia  que o velho sistema seja gradualmente substitudo pelo novo. Em La Victoria, a maior cadeia do pas, h 8000 presos onde deveria haver apenas 1000 pessoas. Ali, a reincidncia ultrapassa os 50%. 

COM REPORTAGEM DE LUCIANO PDUA E LESLIE LEITO


5#3 POLCIA  NEGCIOS  PARTE
Prometendo lucro fcil, ricao da Barra da Tijuca envolve amigos de infncia em investimentos fictcios e foge para a Flrida com mais de 20 milhes de reais.
LESLIE LEITO

     Convidado de honra com todas as despesas pagas, um carioca de 25 anos (que no quer ser identificado) passou dias de festa com bebida e garotas nos Estados Unidos em junho do ano passado. O roteiro comeou em Las Vegas e continuou em Miami, onde ele se hospedou no luxuoso hotel Fontainebleau e virou noites em um camarote no Liv Club, famosa boate da cidade, em farras regadas a champanhe francs cuja conta chegava a 10.000 dlares. Quem bancava tudo era um amigo de longa data, Rafael Miranda Caram, 31 anos. O motivo do agrado de Caram era convenc-lo a aplicar dinheiro em seus variados investimentos  um negcio aparentemente irrecusvel, com retorno muito acima das taxas de mercado. Como resistir? Ele transferiu 300.000 reais  suas economias, somadas a um emprstimo bancrio  para a conta do amigo mo-aberta. Perdeu quase tudo, e no foi o nico. Caram arrecadou recursos de centenas de pessoas ao longo de trs anos, na maioria muito prximas. A, mudou-se com depsitos e bagagens para a Flrida, provocando crises financeiras e familiares em srie nos condomnios de luxo da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde atuava. A investigao na Delegacia de Defraudaes do Rio indica que o golpe passa de 20 milhes de reais. 
     Filho de um empresrio da construo civil da Barra, Caram chegou a trabalhar com o pai, mas em 2011 trocou o negcio da famlia pelo estelionato. "No se trata de pirmide financeira, como muita gente desconfia. Ele  de uma famlia conhecida, tinha bons contatos e passou a vender a iluso de um investimento com retorno absurdo", explica o delegado Aloysio Falco. Seu modo de operao mais frequente era convidar amigos bem de vida para jantar, ou para um drinque, e convenc-los a aplicar nos variados negcios em que se dizia envolvido  nenhum para valer: ora compra e venda de leo diesel, ora transaes com ao barato da China, produtos que, segundo Caram, seriam revendidos a preos muito elevados a fornecedores, principalmente, da Petrobras. "Como todo mundo sabia da existncia de sobrepreo na empresa, a gente acreditava nas promessas", lamenta uma vtima que perdeu 500.000 reais. Setenta pessoas ludibriadas e j identificadas esto sendo ouvidas pela polcia, que dever pedir a extradio e a priso do estelionatrio.  
     A aplicao inicial girava em torno de 50.000 reais, com promessa de no mnimo 16% de lucro no fim de quarenta dias. s vezes esse ganho poderia dobrar. A estratgia, nos trs anos em que Caram atuou, era fazer alguns repasses no comeo, para inspirar confiana. Dessa forma, amigos de infncia dele arregimentaram parentes e outros amigos para o esquema. Uma famlia perdeu 1 milho de reais. Outra precisou vender o apartamento para saldar dvidas bancrias. Caram no agia sozinho. Alm de parentes e pelo menos um gerente de banco, a polcia investiga a participao de dois cmplices: o empresrio Marcelo Coury, parceiro das farras em Miami, e uma mulher que se apresentava como secretria do grupo, Carolina de Resende Zivia. Nas contas dos dois, os investigadores rastrearam depsitos de mais de 150.000 reais de uma das vtimas. No meio do ano passado, a quadrilha parou definitivamente de repassar os "lucros". Em mensagens de texto e e-mails, Caram alegava que os desdobramentos da Operao Lava-Jato vinham atrapalhando os negcios. Na verdade, tinha fugido  o inqurito indica que est morando em Orlando, na Flrida, onde montou dois restaurantes. Em dezembro, comprou uma terceira empresa, por 250.000 dlares. De qu? De investimentos. Salve-se quem puder. 


5#4 ESPECIAL  AMOR ETERNO PELO COLESTEROL
Durante dcadas, alimentos como o ovo foram tratados ora como viles, ora como mocinhos. Pesquisas recentes pem fim a essa gangorra  a mais conhecida (e condenada) das gorduras no faz mal quando  levada ao organismo por meio da alimentao.
ADRIANA DIAS LOPES

     J no  o caso, tomando emprestado o mais conhecido verso do Soneto da Fidelidade de Vincius de Moraes, de um amor que seja infinito enquanto dure, posto que  chama. Em relao ao ovo, o amor agora  eterno, incondicional, irrecorrvel. O consumo do mais ecltico dos alimentos de origem animal, abundante em colesterol, a mais conhecida e condenada das gorduras, acaba de ser definitivamente liberado pela cincia da nutrio. O aval veio de uma instituio reputada no assunto, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, rgo governamental responsvel pelas diretrizes alimentares americanas  e, portanto, com impacto em todo o mundo. 
     
     A absolvio se estende a outros alimentos ricos em colesterol, como camaro, coxa de frango (com pele, fique bem claro), corao de galinha, lula e bacalhau. A novssima norma pode representar uma extraordinria reviravolta nos hbitos  mesa. Ela pe por terra a orientao de cautela no consumo de ovos, para permanecer didaticamente com o mais claro sinnimo de colesterol ingerido, em vigor desde a dcada de 60. A quantidade de colesterol levado  boca no podia, at agora, ultrapassar 300 miligramas dirios, o equivalente a um ovo e meio (ou a uma coxinha de frango). Diz Raul Dias dos Santos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo e diretor da Sociedade Internacional de Aterosclerose: " a mudana de padro alimentar mais drstica j ocorrida desde os primrdios das discusses sobre o papel das gorduras no organismo". 
     O documento americano  um cartapcio de 571 pginas. A alforria do colesterol aparece na 17 e, em pouco mais de discretas cinco linhas, abre o sinal verde, com uma recomendao que desde j comea a fazer barulho pela fora de sua assertividade. "No h evidncia disponvel que mostre alguma relao significativa entre uma dieta com colesterol e os nveis de colesterol sanguneo. O consumo excessivo de colesterol no  motivo de preocupao." Ponto. E termina aqui o incmodo vaivm que ora fazia do ovo e seus congneres os viles da dieta, ora os tratava como mocinhos.  pergunta inescapvel  o colesterol dos alimentos faz mal ao corao?  cabe agora uma nica resposta: no. Um no eterno. O colesterol danoso  tratado sobretudo com medicamentos (estatinas) e atividade fsica. 
     Cerca de 80% do colesterol circulante no organismo  produzido pelo fgado  o restante vem da alimentao. Em doses normais, o colesterol (seja o alimentar, seja o heptico) tem um papel importantssimo no funcionamento do corpo humano, participando da sntese de hormnios e mantendo a integridade das membranas das clulas. Em excesso, porm, danifica as paredes das artrias, o que o faz ser tambm a causa principal dos problemas cardiovasculares, como o infarto e o derrame. O embate, este que agora se encerra, tentava esclarecer qual era a responsabilidade do colesterol ingerido e qual era a parcela do colesterol naturalmente fabricado pelo ser humano. Duas recentes concluses dos cientistas desempataram o jogo renhido. 
     A primeira: apenas uma pequena parte do colesterol alimentar  absorvida pelo organismo  cerca de 30%. Graas a um fascinante mecanismo de defesa, trs protenas (NPC1L1, ABCG5 e ABCG8), responsveis pela metabolizao do composto, tornam-se ineficientes ante quantidades muito elevadas de colesterol alimentar, o que o faz circular muito modestamente. O segundo achado, fruto de acmulo de conhecimento cientfico, foi o que selou de vez a certeza comprada pelos pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Um trabalho publicado na revista cientfica da American Society for Nutrition, a maior referncia em estudos de nutrio, quantificou, em nmeros precisos, o impacto do colesterol que vem dos alimentos sobre o colesterol fabricado pelo fgado. Uma anlise detalhada comprovou que a relao entre os dois  salutar. O colesterol alimentar influencia pouqussimo os nveis de LDL (o colesterol ruim) no sangue. A conta  exata: 100 miligramas (o equivalente a meio ovo) aumenta 1,9 miligrama do colesterol LDL do sangue.  pouco. A gordura saturada, presente na picanha, na manteiga e no toucinho, por exemplo, provoca o dobro de expanso. 
     Se no causa danos preocupantes, o colesterol alimentar tem uma caracterstica que, ao contrrio, entrega benefcios  ele protege o corao. A substncia eleva significativamente a taxa de HDL (o colesterol bom), aquele que limpa a gordura das artrias. O clculo: meio ovo aumenta 0,4 miligrama do HDL no sangue. Ele faz isso estimulando a produo da principal protena (Apo A1) multiplicadora de HDL tanto nos intestinos quanto no fgado. O impacto  brutal. "A atividade fsica intensa, como correr trs vezes por semana ao longo de um ms, causa efeito semelhante", diz o cardiologista Marcus Bolvar Malachias, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. 
      um magnfico marco a absolvio do ovo, sempre cercado de drama, de defensores e detratores, de mos dadas com o caf, seu inglrio parceiro. Juntos, ao menos nos papers cientficos, j fizeram muitos coraes parar, para depois representarem vida, e vice-versa. A estreia do ovo no universo acadmico causou estardalhao. Em 1913, um experimento conduzido no Instituto de Medicina Militar de So Petersburgo, na Rssia czarista, pouco antes da revoluo bolchevique, assinalou o primeiro grande marco na cardiologia. Com o objetivo de comprovar a ideia, ainda incipiente, de que o colesterol estaria associado ao entupimento dos vasos, o patologista Nikolai Anichkov (1885-1964) alimentou uma dezena de coelhos com uma mistura de gemas batidas com leo. Os animais logo ficaram doentes, com as artrias entupidas. A tese estaria comprovada. O colesterol , de fato fazia mal aos vasos. E a culpa, ora, s podia ser do ovo. Em 1958, o mtodo de Anichkov chegou a ganhar um editorial na Annals of Internal Medicine, do Colgio Americano de Mdicos. No texto, a revelao do patologista foi comparada  descoberta do bacilo da tuberculose pelo mdico alemo Robert Koch (1843-1910). Anichkov, porm, cometeu dois erros metodolgicos. Usou leo, uma gordura saturada, substncia sem nenhuma relao com o colesterol. E mais: escolheu a cobaia errada. O coelho  um animal extremamente sensvel ao colesterol. Diferentemente do homem, o bichinho absorve todo o composto de forma veloz. 
     Entre as apostas de Anichkov e as cinco linhas liberadoras divulgadas neste ano nos Estados Unidos, entre momentos de celebrao e outros de condenao, o colesterol dos alimentos sempre foi o elemento decisivo para construir dietas saudveis  t-lo no prato, para alguns pesquisadores, era boa ideia; para outros era um antema. Imaginem-se os alimentos como as ptalas de um crisntemo numa brincadeira de namorados indecisos. O chocolate? Bem me quer. O glten? Mal me quer. A manteiga? Mal me quer. O leite? Bem me quer. O acar? Mal me quer, mal me quer, e cada vez mais nessa condio. Em todos os casos, agora as certezas so muito mais volumosas do que as dvidas. E por que antes no era assim? No se trata de falta de conhecimento nem de escassez de recursos durante o perodo em que os estudos foram realizados. Um dos grandes debates no universo acadmico, sobretudo no campo da sade,  a respeito das caractersticas dos chamados estudos observacionais. So trabalhos organizados, como o prprio nome revela, apenas com a observao medica. Tome-se como exemplo um estudo observacional sobre os efeitos de uma determinada dieta nas taxas de glicose. O resultado do impacto  analisado por meio de exames mdicos ou questionrios, sem nenhuma interferncia mdica mais profunda. "Os estudos observacionais apresentam sugestes, mas no so capazes de comprovar a causa e o efeito do componente avaliado", disse a VEJA Henry Miller, cientista biomdico da FDA, a agncia americana reguladora de medicamentos. 
     No fim de 2011, dois pesquisadores do Instituto Nacional de Cincias Estatsticas dos Estados Unidos revelaram um fato preocupante sobre os estudos observacionais. A dupla, especialista em sade pblica, analisou doze trabalhos, alguns feitos pela sacrossanta Universidade Harvard. A constatao ruim: nenhuma descoberta dos estudos observacionais foi confirmada, depois, por pesquisas atreladas a exames mdicos de laboratrio. Pior: cinco delas chegaram a concluses contrrias aos dados relatados pela mera observao. Um deles, por exemplo, afirmava que o uso de vitamina C e de betacaroteno, composto presente na couve, na cenoura e no pimento, poderia prevenir o cncer de pulmo entre os fumantes. Um estudo detalhado, com quase 30.000 pessoas, comprovou que nenhuma das duas substncias utilizadas  associadas ou isoladas  tinha efeito contra o cncer. H estudos observacionais notveis, porm. O principal deles  uma das mais excepcionais pesquisas j construdas no campo da sade em todos os tempos: a Framingham. Em andamento desde 1948, o trabalho tem como objetivo acompanhar moradores da pequena cidade americana de Framingham, perto de Boston, nos Estados Unidos. Framingham  de extrema relevncia porque se prope a medir algo imensurvel em curto prazo, como a influncia do estilo de vida e da gentica na sade. 
     Na tentativa de frear resultados cientficos superficiais, as revistas cientficas tm se tornado cada vez mais exigentes. A prestigiosa Nature, por exemplo, criou em 2013 um questionrio especificamente com esse objetivo. Antes de submeterem um estudo para publicao, os pesquisadores tm de responder a dezessete perguntas minuciosas sobre o mtodo que utilizaram para realiz-lo. O peridico pergunta, por exemplo, quais so os critrios de incluso dos voluntrios ou dos animais, quais so as referncias utilizadas para os clculos estatsticos etc. "A deciso de criar um questionrio para garantir que as concluses dos estudos estejam corretas vem de um longo debate na comunidade cientfica", disse a VEJA Vronique Kiermer, diretora dos servios de autores e pesquisas da Nature. 
     O vaivm dos estudos clnicos pertence  prpria gnese da histria da medicina. No fim do sculo XIX, a aspirina, nome comercial do cido acetilsaliclico, foi preterida em favor da... herona. A aspirina e a herona foram marcas registradas do laboratrio Bayer no mesmo perodo. Os dois compostos tiveram o mesmo criador, o qumico alemo Felix Hoffmann (1868-1946). Hoffmann desenvolveu os produtos na tentativa de encontrar algo que aliviasse as dores crnicas de seu pai. A comercializao da herona, contudo, foi privilegiada por seus "efeitos extraordinrios na sade". A Bayer balizou a substncia com  o nome de herona, devido a suas "qualidades hericas". Em 1898, o composto passou a ser vendido sem receita mdica nas farmcias. O fabricante o comercializava tambm em forma de xarope como uma cura segura de resfriados e outras doenas respiratrias para as crianas. Os supostos efeitos benficos da herona duraram pouco. No incio do sculo XX, descobriu-se que ela causava uma dependncia qumica ainda mais forte que a da morfina. A Bayer parou de produzi-la em 1913, um ano antes de a sua venda comear a ser oficialmente controlada. A partir de ento, a aspirina recebeu todas as atenes do laboratrio. Ensaios clnicos feitos com a medicao mostraram mltiplos benefcios: alvio da dor, poder anti-inflamatrio, reduo da febre e preveno de problemas cardacos. Levou tempo para a aspirina sobrepujar a herona. Levou tempo para o colesterol dos alimentos ser reabilitado. Mas, agora, sem recuo no horizonte. 

UM INIMIGO ACUADO PARA SEMPRE
     Por que o colesterol contido em alimentos deixou de ser um problema na dieta, de acordo com os resultados de duas dcadas de investigao minuciosa.

Uma poro muito pequena do colesterol total do sangue vem da comida 
15% provm dos alimentos ricos nesse tipo de gordura 
85% so fabricados pelo fgado (a quantidade  definida por fatores genticos individuais)   

A absoro do colesterol alimentar  modesta... 
1- Quando o colesterol chega ao trecho final do intestino delgado, apenas uma pequena parte dele  absorvida  30%. Num engenhoso mecanismo de defesa, as protenas, responsveis pela absoro, tornam-se ineficientes diante de quantidades muito elevadas de colesterol alimentar 
2- Ainda no intestino, o colesterol alimentar estimula a produo da principal protena fabricante de HDL, o colesterol bom 
3- A poro absorvida pelo intestino cai na corrente sangunea e se junta ao colesterol circulante 
4- No fgado, como ocorre com a gordura saturada tambm ingerida por meio de alimentos, o colesterol reduz a absoro de LDL, o colesterol ruim, o que aumenta, portanto, sua circulao no sangue. Mas esse aumento  pouco se comparado ao da gordura saturada, que  o dobro 

...e os danos, pequenos 
Proporcionalmente, o colesterol alimentar aumenta pouco o colesterol ruim (LDL), e ainda faz crescer o colesterol bom (HDL) 
O consumo de 100 miligramas de colesterol alimentar... 
...aumenta 1,9 miligrama o LDL (ruim) 
 a gordura saturada provoca o dobro de aumento do LDL 
...aumenta 0,4 miligrama o HDL (bom) 
 a atividade fsica intensa, como correr trs vezes por semana durante um ms, causa o mesmo efeito no HDL 

A FUNO DO COLESTEROL NOS RGOS E NAS CLULAS
NAS GLNDULAS SUPRARENAIS - Participa da fabricao do hormnio cortisol
NOS TESTCULOS - Est envolvido na produo do hormnio masculino testosterona
NAS CLULAS DO ORGANISMO - Mantm a integridade das membranas  20% delas so compostas de colesterol
NOS OVRIOS - Participa da sntese dos hormnios femininos progesterona e estrognio

ESTES AGORA D PARA COMER SEM CULPA...
Os alimentos com colesterol muitas vezes so constitudos tambm por gordura saturada, o lipdio nocivo s artrias do corao. Quando a quantidade de gordura saturada  alta (acima de 4 gramas), eles devem ser consumidos com moderao, independentemente do total de colesterol.

O limite de consumo
Colesterol - O teto de 300 miligramas dirios acabou de ser derrubado
Gordura saturada - At 20 gramas por dia (em uma dieta de 2000 calorias)

OVO (uma unidade)
Colesterol - 200 miligramas
Gordura saturada - 1,3 grama

Camaro (um prato de sobremesa)
Colesterol - 241 miligramas
Gordura saturada - 0,4 grama

Corao de frango (cinco unidades)
Colesterol - 280 miligramas
Gordura saturada - 3,5 gramas

Lula (um prato de sobremesa)
Colesterol - 260 miligramas
Gordura saturada  ZERO

Coxa de frango com pele (duas unidades)
Colesterol - 215 miligramas
Gordura saturada - 3,1 gramas 

Bacalhau (uma posta)
Colesterol - 112 miligramas
Gordura saturada - 0,9 grama

Pintado (uma posta mdia)
Colesterol - 126 miligramas
Gordura saturada - 1,8 grama

Fonte: Ana Carolina Moron Gagliardi Miguel, nutricionista e pesquisadora da Universidade de So Paulo.

LEITE  PARA TOMAR NA ADOLESCNCIA 
     O leite j foi vtima da gangorra das concluses dos estudos cientficos. Um dos pontos mais discutidos  o fato de a bebida favorecer alergias. Diz a nutricionista Ana Carolina Moron, pesquisadora da Universidade de So Paulo: "As protenas do leite podem provocar uma reao no organismo contra o prprio alimento". Mas a propriedade principal do leite, a de ser uma farta fonte de clcio e magnsio, acaba sempre superando qualquer entrevero acadmico. E o leite virou certeza. A restrio ao consumo, claro,  para as pessoas que tm intolerncia a lactose.
      Um nico copo de leite contm cerca de 250 miligramas de clcio. A mdia recomendada de ingesto do mineral  de 1300 miligramas dirios, o equivalente a cerca de cinco copos da bebida. O clcio  essencial para a manuteno de um esqueleto forte. Ele deve ser estocado pelo organismo at o fim da adolescncia. Depois disso, o tecido sseo deixa de absorv-lo com a mesma eficincia. A baixa ingesto do mineral na juventude aumenta em 20% o risco de osteoporose na idade adulta. Recentemente, descobriu-se outra propriedade positiva do leite. Seu alto teor de potssio e magnsio tem efeito vasodilatador, um atalho para o aumento do fluxo de sangue aos rgos. H ainda protenas na bebida que inibem a ao de enzimas associadas ao aumento da presso arterial. 

...MAS COM ESTES AINDA  MELHOR IR COM CALMA
Por serem alimentos ricos em gordura saturada.

Queijo amarelo (trs fatias)
Colesterol - 106 miligramas
Gordura saturada - 19,7 gramas

Picanha (uma fatia grossa)
Colesterol - 100 miligramas
Gordura saturada - 7,9 gramas

Toucinho (um prato de sobremesa)
Colesterol - 82 miligramas
Gordura saturada - 20 gramas

Manteiga (uma colher de sopa)
Colesterol - 33 miligramas
Gordura saturada - 8,2 gramas

Linguia (duas unidades)
Colesterol - 85 miligramas
Gordura saturada - 10 gramas

Costela de porco (trs pedaos)
Colesterol - 69 miligramas
Gordura saturada - 7,4 gramas

O DOCE TRAIOEIRO
     O acar  uma unanimidade. Faz mal. E cada novo relatrio, como o das diretrizes americanas, que absolveu o colesterol dos alimentos, acrescenta mais um captulo para conden-lo. A recomendao, consensual: reduo drstica do consumo (veja o quadro abaixo). Do ponto de vista do funcionamento metablico do organismo humano, seria desnecessrio adicionar acar aos alimentos. Basta o composto natural encontrado no mel e nas frutas. Sem o acar, a humanidade seria outra - muito mais saudvel. Estudos robustos mostram que nveis altos desse composto no sangue esto entre as principais causas de diabetes, problemas cardiovasculares, doenas do sistema nervoso e obesidade. Na sociedade moderna, o refrigerante  seu veculo mais popular, em especial nos Estados Unidos. Os americanos consomem 56 bilhes de litros de refrigerante por ano - quatro vezes mais que os brasileiros. "No h como defender o acar", resume a nutricionista Ana Carolina Moron, pesquisadora da Universidade de So Paulo. 
     O sal tambm  citado no documento americano como um dos grandes inimigos do corao. Em excesso, tem ao vasoconstritora e agride a parede das artrias  desencadeando, portanto, doenas cardiovasculares. O consumo recomendado de sal  de 5 gramas, ou uma colher de ch, por dia, no mximo. 

As regras para o acar
 Limitar o consumo dirio de acar a at: 12 colheres (de ch)
 Quanto se consome hoje (por dia)
Nos Estados Unidos: 30 colheres
No BRASIL: 20 colheres
Observao: uma lata de 350 ml de refrigerante contm 10 colheres (ch) de acar, o equivalente a 150 calorias.

O VAIVM DO OVO AT A ABSOLVIO...
Os avanos no conhecimento da fisiologia e na cincia da nutrio levaram  liberao definitiva do alimento mais rico em colesterol.
1910: O patologista russo Nicolai Anichkov descreveu por meio de experimentos com coelhos a associao do colesterol alimentar com a obstruo arterial.
Comentrio: O coelho no  o animal indicado para esse tipo de experimento -  supersensvel ao colesterol. Alm disso, o mdico misturou alimentos ricos em colesterol com gordura saturada.

1960: A Associao Americana do Corao restringiu o consumo de alimentos ricos em colesterol. A recomendao passou a ser de 300 miligramas por dia, o equivalente a um ovo e meio
Comentrio: A instituio, porm, tomou como base estudos feitos no s com o ovo, mas com a manteiga, um alimento riqussimo em gordura saturada, confundindo, portanto, as informaes

1980: Surgiram as estatinas, os medicamentos mais eficazes contra o colesterol
Comentrio: O furor em torno do sucesso das estatinas (os remdios reduzem em mdia, 40% do colesterol ruim, o LDL) fez com que fossem deixados de lado os estudos sobre o colesterol alimentar

1990: Um volumoso estudo observacional iniciado na dcada de 40 em Massachusetts afirmou pela primeira vez que o colesterol alimentar "pode no ter" impacto to grande sobre a sade das artrias
Comentrio: A classe mdica comeou a ter menos preconceito contra o alimento. Iniciaram-se os estudos que revelariam, na mesma dcada, a modesta absoro no organismo do colesterol alimentar 

2000: O maior estudo j conduzido sobre o consumo do ovo avaliou dezesseis trabalhos que envolveram cerca de 600.000 pessoas. Os pesquisadores constataram que o risco cardiovascular  igual entre os que consomem um ovo por semana e aqueles que comem mais de um ovo por dia
Comentrio: O estudo mostrou que, ao longo de dez anos, o risco de infarto foi de 3%, independentemente da quantidade de ovos ingerida

2010: Estudo feito pela Universidade Western, no Canad, concluiu que o consumo frequente de ovos - trs ou mais por semana - pode aumentar significativamente o acmulo de placas de gordura nas artrias 
Comentrio: A pesquisa incluiu os portadores de diabetes tipo 1, que tendem a absorver mais o colesterol alimentar. A doena acomete cerca de 1% da populao

2015: O grupo consultivo que atualiza as diretrizes alimentares a cada cinco anos recomendou o fim do limite do colesterol na dieta
Comentrio: Pela primeira vez, pesquisadores renomados na rea da sade derrubam a restrio ao consumo de colesterol alimentar


...E A TRAJETRIA SEMELHANTE DO CAF 
O caf recebeu o aval das instituies de pesquisa depois de trs dcadas de incertezas.
1980: Pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, coordenados pelo epidemiologista Brian MacMahqn, afirmaram que o caf estaria relacionado ao cncer de pncreas
Comentrio: O cncer de pncreas  at hoje um dos maiores desafios da medicina. Na dcada de 80, sabia-se menos ainda sobre os mecanismos desse tumor agressivo

1992: Estudo conduzido pela Universidade de Boston, nos Estados Unidos, revelou que no h relao entre o consumo de caf e deformidades no feto 
Comentrio: Dois anos antes, o FDA, rgo que regula alimentos nos Estados Unidos, havia recomendado a mulheres grvidas que consumissem pouco caf devido a possveis problemas com o feto

1990: Um trabalho feito pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, concluiu que as pessoas que trocam o caf tradicional pelo descafeinado tm o colesterol ruim (LDL) aumentado em 7%
Comentrio: Apesar de ter sido conduzido por uma instituio de primeira linha, o estudo era minsculo - apenas 188 pessoas participaram da pesquisa

2010: Pesquisadores da Universidade Kuopio, na Finlndia, revelaram que o consumo de caf poderia prevenir o Alzheimer na velhice
Comentrio: O estudo foi conduzido ao longo de 21 anos, com visitas frequentes dos mdicos a todos os participantes do experimento 

2015: Trabalho coordenado por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, comprovou que pessoas que bebem de trs a cinco xcaras de caf por dia tm suas artrias mais protegidas de obstrues do que as que ingerem quantidades menores da bebida
Comentrio: No total, 25.100 pessoas de perfil bem diferente participaram do trabalho - homens, mulheres, fumantes, no fumantes, obesos, magros, jovens e idosos

Fontes: Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Hospital Albert Einstein, e Andr Deeke Sasse, oncologista da Unicamp

O VINHO  AMIGO DO PEITO 
     Uma taa diria para as mulheres e duas taas para os homens. Essa  a dose de vinho recomendada pela Organizao Mundial da Sade (OMS). A indicao surgiu de estudos epidemiolgicos franceses conduzidos na dcada de 80. Desde ento, nada mudou. Bebedores regulares (e moderados) de vinho tinto so menos propensos a sofrer de problemas cardiovasculares. O consumo dirio da bebida tem efeito vasodilatador e aumenta a taxa sangunea de HDL, o colesterol bom. Na matemtica da longevidade, esse hbito saudvel confere trs anos a mais de vida ao apreciador de tintos, em especial, roses e brancos. 
     O segredo do vinho est no resveratrol, composto fitoqumico presente na casca da uva. O resveratrol impede a ao dos radicais livres, as molculas associadas ao envelhecimento celular. Isso  feito por meio de dois mecanismos. No primeiro, o resveratrol se liga a essas molculas, desativando-as. No segundo, anula as enzimas responsveis pela formao dos radicais livres. 

COM REPORTAGEM DE CAROLINA MELO
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6# ARTES E ESPETCULOS 27.5.15

     6#1 EXPOSIO  O RADICAL ALINHADO
     6#2 LIVROS  AO PBLICO, A CONTA
     6#3 LIVROS  O PESADELO DE PERTO
     6#4 TELEVISO  A NUDEZ CASTIGADA
     6#5 VEJA RECOMENDA
     6#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     6#7 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - A REPBLICA QUE NO SOMOS

6#1 EXPOSIO  O RADICAL ALINHADO
Uma mostra extraordinria em So Paulo desvenda a fora do catalo Joan Mir  o homem manso que fez uma das mais extremas revolues da pintura moderna.
MARCELO MARTHE

     Discreto, calado, o pintor catalo Joan Mir (1893-1983) protagonizou uma anedota clebre na Paris dos anos 30. Incomodado com a cara de paisagem de Mir durante um debate entre expoentes do surrealismo, uma das ruidosas vanguardas do perodo, o colega Max Ernst pegou uma corda e fingiu que ia enforc-lo. O srio Mir se assustou tanto com a brincadeira que, agitando-se com a corda no pescoo, se machucou de verdade. Na contramo da pose cultivada por tantos pintores do sculo XX, eis um sujeito que no cabia no figurino de incendirio. Embora fosse amigo e parceiro de boxe de um bon-vivant como o escritor americano Ernest Hemingway, Mir tampouco foi mulherengo ou f da birita. Mas poucos modernistas foram to radicais, no alcance de seus feitos, quanto o artista celebrado em uma mostra extraordinria que ser aberta no domingo 24, no Instituto Tomie Ohtake, em So Paulo.  custa de tcnica, disciplina e uma inquietude sem fim, o bem-comportado Mir foi um subversivo demolidor das convenes da pintura. 
     Entre os modernistas, Mir foi o mais obcecado em alcanar a espontaneidade absoluta com seu trabalho. Diante das 112 obras da exposio (que em setembro chegar a Florianpolis), todas pertencentes  Fundao Mir, o espectador  arrebatado por certa leveza e liberdade de trao que tornam seu estilo to familiar. Mas no se deve confundir tal caracterstica com facilidade. Esse efeito exigia uma carga pesada de labor fsico e intelectual. Mir definia seu processo de trabalho como um eterno exerccio de provocao e confrontao de si prprio. "Toda obra nascia de um mal-estar interior. Eu o via desenhar e arremessar a tinta sobre a tela em um transe rpido e violento. Mas, logo depois, ele pisoteava os quadros e os largava em um canto por meses ou mesmo anos. At que, de repente, tinha o lampejo de como concluir sua ideia", contou a VEJA Joan Punyet Mir, neto que passou temporadas com o pintor em seu ateli na ilha de Maiorca, no Mediterrneo  e veio ao Brasil acompanhar a montagem da mostra. "Meu av era um pessimista." 
     O hbito de pisotear quadros sem d  um detalhe nada fortuito. Mir gostava de pintar sobre telas esticadas no cho, e no na tradicional posio vertical, com apoio do cavalete. Isso decorria do engajamento na maior de todas as suas lutas: a tarefa de libertar a pintura das amarras do plano tridimensional. Como lembra o poeta brasileiro Joo Cabral de Melo Neto (1920-1999) em um ensaio clssico que produziu aps visitar o ateli de Mir perto de Barcelona (e tornar-se seu amigo), a adoo da perspectiva tridimensional foi a inovao com a qual os mestres renascentistas criaram a forma de arte que se conhece como pintura. Com o passar dos sculos, porm, a inveno genial faria de artistas e espectadores refns de uma nica noo de espao e equilbrio. Modernistas como o tambm espanhol Pablo Picasso investiram na representao bidimensional como forma de dinamitar a antiga conveno. Mas coube a Mir pegar a tocha e lev-la para muito alm do ponto em que Picasso e os colegas surrealistas a haviam conduzido. Conclui Joo Cabral: "A obra de Mir  uma luta para devolver ao pintor uma liberdade de composio h muito tempo perdida". 
     Mir valeu-se de duas armas no af de atingir essa espontaneidade calculada. Ao soltar as rdeas de suas linhas, ele dissolveu objetos e personagens at reduzi-los a formas simplificadas e pouco (ou nem um pouco) reconhecveis. Algumas linhas austeras e manchas coloridas podem simbolizar um pssaro ou uma pessoa.  uma lgica que, em essncia, vai contra os dogmatismos da pintura abstrata  sobretudo de suas vertentes geomtricas, que surgiram mais ou menos ao mesmo tempo, mas desaguaram em uma arte cerebral. Joo Cabral atenta para algo fundamental a: apesar de espontneo, Mir nunca descamba para o caos. Nas suas obras, tudo  harmonia e conciso. 
     A outra arma de Mir  a transformao de acidentes de percurso em um truque para manipular iluses. "Ele aprendeu a valorizar os borres inesperados, as imperfeies dos materiais e os atos falhos de seu trao", diz Paulo Miyada, do Instituto Tomie Ohtake. Em duas obras sensacionais da mostra brasileira, o material precrio  ele pintou uma delas sobre um pano velho e usou um compensado de madeira todo esburacado como base da outra   o elemento que potencializa as sensaes de quem as v de perto. Na escultura, que ganhou mais peso em sua obra no ps-guerra, Mir busca o mesmo efeito com a juno ao acaso de pedaos de sucata. 
      lugar-comum dizer que as obras de Mir exalam uma pureza de intenes  semelhante  dos rabiscos de uma criana. Mas deve-se observar melhor essas "coisas de criana": o pintor cultivava um erotismo subterrneo, com aluses a falos e a derrires femininos. "Ele dirigia sua libido para a criatividade", diz o neto do artista (consta que Mir foi sempre fiel a uma s mulher, me de sua filha). 
     O pintor perseguia um ideal de reinveno contnua, que conservou seu frescor juvenil ao longo da vida. Mir manteve-se relevante mesmo aps os anos 1950, quando o expressionismo abstrato do americano Jackson Pollock, tomando a obra do catalo como um dos pontos de partida, avanou mais uma casa na radicalizao bidimensional. Diz a lenda que, ao ver as imensas telas de Pollock pela primeira vez, Mir entrou em estado de choque. Por um perodo, manteve-se acabrunhado  at que concluiu que ele ainda tinha, sim, condies de se manter dignamente na luta. 
     Um dos responsveis pela consagrao do expressionismo abstrato, o crtico americano Clement Greenberg decepcionou-se ao conhecer Mir, artista que admirava. Ento no auge da fama, o catalo balbuciou umas poucas palavras sem convico diante do crtico poderoso. "Aqueles que tiveram ocasio de conhec-lo avistavam um homem pequeno, atarracado, taciturno. Era impossvel no perguntarmos a ns mesmos o que teria impelido esse burgus para a pintura moderna", observou Greenberg. Como ensinam as figuras enigmticas de Mir, as aparncias enganam. 


6#2 LIVROS  AO PBLICO, A CONTA
Em um livro que acerta no centro do alvo, Eugnio Bucci desmonta o conceito de "comunicao pblica" e revela que os governos gastam nosso dinheiro  com propaganda.
J.R. GUZZO

     H uma frase logo no primeiro pargrafo do livro O Estado de Narciso  A Comunicao Pblica a Servio da Vaidade Particular (Companhia das Letras; 247 pginas; 34,90 reais; 23,90 reais na verso eletrnica), do jornalista Eugnio Bucci, que vale por um curso inteiro de cincia poltica tal como ela  aplicada na vida real do Brasil dos nossos tempos. "A comunicao pblica no Brasil virou um palanque partidrio, um negcio lucrativo, uma passarela para a vaidade particular e, sem exagero algum, uma arma a servio da guerra eleitoral." Bucci acerta bem no meio do alvo. Esquea, ou ponha de lado, o que voc tem ouvido sobre "comunicao pblica" neste pas, porque basicamente, como mostra o livro,  tudo mentira. No  comunicao.  propaganda. No  pblica.  privada. No presta servio algum ao cidado brasileiro. Serve apenas para promover os interesses pessoais de quem manda nos governos e de quem recebe as verbas de "comunicao"  dinheiro dos contribuintes que nossas autoridades gastam no para lhes comunicar alguma coisa til, mas para falar bem de si prprias. No atende ao direito  informao da sociedade. " outro bicho", resume o autor. 
     Podem confiar nele. Bucci, alm de ter uma excelente pontaria,  um profissional de talento comprovado por fatos, tem o hbito insuportvel de escrever as coisas como elas so no mundo das realidades e no diz nada que no possa comprovar. Tambm sabe perfeitamente do que est falando, porque j esteve l, como Jonas na barriga da baleia. De 2003 a 2007, durante "quatro anos, trs meses, vinte dias e duas horas", como ele se lembra at hoje, foi presidente da Radiobrs  uma dessas nebulosas do servio pblico que na poca servia para fornecer noticirio do governo atravs de dois canais de televiso, quatro emissoras de rdio e duas agncias distribuidoras de notcias. Alm disso, no que facilita muito as coisas para o leitor, Bucci escreve bem  no h nenhum risco de topar em seu livro com a prosa constipada, pretensiosa e desesperadamente chata dos nossos grandes textos sobre questes da vida pblica, que pretendem ter rigor acadmico mas em geral conseguem ser apenas incompreensveis. O resultado prtico disso tudo  que Bucci escreveu provavelmente o melhor livro sobre comunicao oficial j publicado no Brasil  algo muito interessante nesta era em que marqueteiros polticos, "construtores de imagem", gurus do horrio eleitoral obrigatrio e outros crebros da propaganda vm sendo considerados essenciais para a sobrevivncia dos governos perante a opinio pblica. 
     O brasileiro que no for cego ou surdo sabe muito bem o que  "comunicao pblica"  so todos esses anncios que l nas pginas de revistas ou jornais, v em comerciais na televiso e ouve em mensagens no rdio, dizendo que ele vive no pas que tem os melhores governantes do mundo. Como o cidado no sabe disso, o governo precisa inform-lo, no  mesmo? Por conta dessa lorota, paga 100% com dinheiro pblico, formou-se um monstro. Consome bilhes de reais a cada ano,  alimentado pelo governo federal, pelos 27 estados e por centenas de municpios e serve unicamente como uma "usina de propaganda ideolgica", na definio de Eugnio Bucci. Seu objetivo real, perseguido sem o menor disfarce,  ajudar os polticos que tm a chave dos cofres do Errio a ganhar eleies  no apenas de dois em dois anos, quando h eleio, mas o tempo todo, dentro da ideia de que campanha eleitoral  um esforo que no pode parar nunca. Essa ofensiva permanente para comprar votos  feita pelos poderes Executivo, Legislativo e at Judicirio, onde desembargadores, juzes e ministros dos tribunais superiores se sentem perfeitamente autorizados, hoje em dia, a fazer marquetagem pessoal com dinheiro pblico. 
     A "usina" mencionada pelo autor  um portento. Conta, para comear, com o colar de canais de televiso, emissoras de rdio, agncias de notcias e sistemas de informao digital que pertencem diretamente aos governos, em todas as suas esferas  ou melhor, pertencem  populao brasileira, j que legalmente este pas  uma repblica, mas na prtica funcionam como bens particulares dos polticos que esto no poder. A seguir vm as joias da coroa: as verbas pagas aos rgos de comunicao privados para publicarem anncios sobre as virtudes dos governos e comunicados oficiais descritos como de carter "social". H tambm os sinistros "patrocnios", em geral pagos por empresas estatais e similares, para financiar os mais extraordinrios eventos em troca de publicidade colocada em placas, cartazes e coisas assim; vale rigorosamente tudo, a. (O leitor talvez se lembre de como podem acabar essas histrias de "patrocnio": um ex-diretor do Banco do Brasil esteve no centro de uma delas, e hoje tem domiclio num xadrez do sistema penitencirio da Itlia. Seu nome  Henrique Pizzolato.) A mquina de elogiar os governos sustenta todo um setor do mundo brasileiro de negcios: no s os 10.000 veculos de comunicao que divulgam publicidade oficial, mas tambm agncias de propaganda, empresas de "marketing poltico", produtores de comerciais, consultorias de relaes pblicas, assessorias de imprensa. O "bicho" de que fala Bucci cresceu tanto que hoje existe no governo federal um ministrio inteirinho, a Secom, s para cuidar da "comunicao social". Em suma: todos ganham, menos o pblico pagante. 
     Quanto est pagando? Mistrio: o governo no informa ao pblico quanto gasta para cumprir seu "dever de informar" o pblico. "Os nmeros sumiram na poeira do tempo", escreve Bucci. "Talvez seja mais fcil ressuscitar os documentos sobre a escravatura que Rui Barbosa mandou incinerar do que descobrir quanto os governos ps-ditadura queimaram com autopromoo." Tudo o que se tem so amostras. Sabe-se, por exemplo, que s o governo federal, em 2014, gastou perto de 4 bilhes de reais  cerca de 2,3 bilhes com publicidade mais 1,4 bilho em "patrocnios".  menos que o prejuzo que a Petrobras lanou em seu ltimo balano, na casa dos 6 bi, por conta do petrolo. Mas o problema no  s a quantia em dinheiro; como na ladroagem petroleira, a incinerao de dinheiro pblico em propaganda no tem justificativa alguma, nem administrativa nem moral. O principal argumento em seu favor  uma piada: a "necessidade de informar o pblico" sobre campanhas de vacinao etc. Mas ento por que os governos no limitam estritamente a esses casos as suas despesas com comunicao? O problema ficaria lindamente resolvido. A justificativa seguinte  outro monumento  hipocrisia. Fala-se que  preciso anunciar obras e outros feitos do poder pblico para "prestar contas  populao" a respeito de como os impostos esto sendo aplicados  como se algum pudesse no perceber, por exemplo, que est viajando de carro por uma estrada nova, ou que abriram uma estao de metr perto da sua casa. Alm disso, tudo o que anunciam  essencialmente falso; a realidade no tem nada a ver com a exibio que fazem de suas virtudes. Como diz Bucci: olhando os anncios-padro de novos hospitais, d vontade de ficar doente e sair correndo para se internar num deles. 
     A verdade, no fim de todas as contas,  que os governos fazem exatamente o contrrio, na prtica, daquilo que anunciam na mdia. No querem informar  querem esconder informaes, como acontece sistematicamente quando recebem qualquer pergunta que acham incmoda. Os jornalistas sabem da dificuldade extrema que  obter, digamos, alguma informao sobre gastos com carto de crdito feitos pelo ministro fulano, ou sobre uma viagem de jatinho do ministro beltrano; tm de recorrer o tempo todo  Lei de Acesso  Informao para fazer seu trabalho. Comunicao "pblica"? Esta opo no est disponvel no momento. 


6#3 LIVROS  O PESADELO DE PERTO
No magistral A Zona de Interesse, o ingls Martin Amis equilibra stira e melancolia na reconstituio ficcional do cotidiano de um campo de concentrao nazista.
JERNIMO TEIXEIRA

     O ponto de partida do mais recente romance de Martin Amis  segundo o prprio autor relata em entrevista a VEJA  foi uma cena de amor  primeira vista. A partir dessa singela imagem, o escritor ingls comeou a redao do livro. L est, nas pginas iniciais de A Zona de Interesse (traduo de Donaldson Garschagen; Companhia das Letras; 392 pginas; 54,90 reais), o encantado Angelus Thomsen vigiando, de longe, Hannah Doll, que volta para casa depois de um passeio. Ela vem acompanhada por suas duas filhas (infelizmente para Thomsen,  uma mulher casada), e est usando "um vestido branco pregueado que descia at os tornozelos e um chapu de palha creme com uma fita preta". To ensolarada, to idlica  a cena, com suas delicadas sugestes erticas, que o leitor quase deixa de notar a meno muito passageira a um patbulo  beira do caminho de Hannah. Mais difcil de ignorar, at porque o texto cita a expresso duas vezes,  o destino da personagem: ela entra no Kat Zet  da sigla KZ, de Konzentrationslager, "campo de concentrao" em alemo. Embora o texto no informe explicitamente (mais ou menos como em Corao das Trevas, o pesadelo colonial de Joseph Conrad, no consta a palavra "Congo"), estamos em Auschwitz. Thomsen veste roupas civis quando vislumbra Hannah, mas  um oficial alemo. E o objeto de seu desejo  a mulher do comandante do campo. 
     Amis, 65 anos, j havia tratado do Holocausto em uma obra anterior, A Seta do Tempo, de 1991. Mas aquela era uma engenhosa experimentao narrativa, na ponta de lana da fico que ento se chamava de "ps-moderna". Os eventos transcorriam de trs para a frente, de modo que Auschwitz parecia "fabricar" judeus a partir da fumaa que entrava nas chamins de seus fornos. A misria e a brutalidade do genocdio acabavam de certo modo sufocadas pela pirotecnia do estilo. Em A Zona de Interesse, ao contrrio, estamos prximos demais do campo, cujo cheiro nauseabundo  descrito com impressionante riqueza de texturas. "Este no  um romance to estilizado.  realismo social, com elementos de stira", define Amis. 
     A ao se passa entre 1942 e 1943, com um captulo final no ps-guerra. Trs narradores se alternam, sempre em primeira pessoa. Thomsen  o heri hesitante do livro. Homem culto e educado  como eram muitos SS, contrariando a noo equivocada de que o nazismo foi conduzido s por gente tosca e bruta (veja o quadro) , Thomsen  sobrinho de Martin Bormann, o secretrio de Hitler, e tira partido, cinicamente, desse pistolo. Sabe recitar  perfeio os princpios doutrinrios da mquina de morte  qual formalmente serve, mas no tem a mnima f no nazismo. Aos poucos, em parte exaltado pela frustrada paixo por Hannah, ele se converte em um resistente silencioso, ajudando em pequenos atos de sabotagem no campo. Paul Doll, o comandante do Kat Zet,  uma voz narrativa tingida pela stira. "Havia muito de ridculo na ideologia nazista", diz Amis, que se baseou, para compor o personagem, nas pginas autobiogrficas deixadas por Rudolf Hss, o verdadeiro comandante de Auschwitz. Sentencioso mas obtuso, Doll vive em permanente estado de autoengano  sobre as chances de a Alemanha derrotar os soviticos em Stalingrado, sobre as aes e intenes de Hannah, sobre sua prpria importncia no campo. O trio de narradores se fecha com a triste figura de Szmul, um prisioneiro judeu polons que serve nos Sonderkommando  grupos que colaboravam com os carrascos, desempenhando tarefas degradantes como arrancar dentes de ouro dos mortos. H uma estranha e trgica dignidade nesse personagem humilhado e  primeira vista submisso. 
     "Preciso de alguma coisa alm de palavras", diz Szmul a certa altura de seu doloroso relato. Amis, porm, recusa a ideia de que o Holocausto seja uma experincia to desumanizadora a ponto de tornar impossvel que se escreva a respeito (ele lembra, a propsito, escritores que sobreviveram aos campos, como o italiano Primo Levi e o romeno Paul Celan). A Zona de Interesse conjuga a necessria sensibilidade para tratar de um trauma histrico, a aguda inteligncia para analisar, com o instrumento da imaginao ficcional, as monstruosas razes e os profundos significados desse trauma, e a revigorante ousadia de introduzir no enredo elementos que pareceriam indecorosos diante da gravidade do trauma  humor, graa, enlevamento romntico. 
     De forma s vezes perturbadora, o leitor  imerso na vida cotidiana do campo de concentrao, sem uma s nota falsa nessa caracterizao mida. Sobre o humor, acaba prevalecendo uma nota de melancolia, que se estende e aprofunda na cena final, com os mesmos protagonistas da abertura do romance em um reencontro no qual ressoam inusitadas evocaes do final de Grandes Esperanas  embora o inocente clssico de Charles Dickens parea um par antagnico para este tenebroso A Zona de Interesse. Martin Amis entrega aqui uma pea de fico magistral, que reafirma, com uma interpretao esperanosa mas jamais ingnua, o que vai dito nos belos e enigmticos versos do sobrevivente Paul Celan: "Ainda h canes a cantar alm dos homens". 

A EDUCAO DOS MONSTROS
     Passados setenta anos do fim da II Guerra Mundial, h uma pergunta fundamental que continua a alimentar nossa perplexidade com a barbrie nazista: como foi possvel que homens cultos, que liam os versos de Rilke, ou que tocavam as sonatas de Beethoven, fossem os idealizadores e executores da tentativa de aniquilao de um povo inteiro, resultando na morte de mais de 6 milhes de judeus? Crer & Destruir (traduo de Andr Telles; Zahar; 480 pginas; 79,90 reais; 49,90 reais na verso eletrnica), do historiador francs Christian Ingrao, oferece-nos algumas pistas. Fruto de uma ampla pesquisa nos arquivos alemes, o livro de Ingrao acompanha a trajetria de oitenta jovens intelectuais alemes com atuao nos diversos rgos de represso da burocracia nazista. 
     A obra contribui para desbancar a tese segundo a qual a ideologia, o partido e a mquina estatal-militar nazistas eram quase exclusivamente o produto de uma massa de homens brutos e desqualificados intelectualmente. Segundo Ingrao, esses jovens intelectuais militantes "no corroboram em nada o clich do militante nazista inculto", e suas trajetrias so bastante exemplares de um processo histrico que Crer & Destruir fundamenta em slidas evidncias empricas. Tampouco eram simples burocratas seguindo ordens, ou exemplos da "banalidade do mal" que a filsofa Hannah Arendt tornou clebre na anlise do caso Eichmann. Pelo contrrio: Ingrao apresenta-nos carreiras universitrias e profissionais dedicadas conscientemente  tarefa de consolidar uma ideologia biologicamente racista e ultranacionalista. 
     De outro lado, ao concentrar-se na atuao de intelectuais sados das melhores universidades alems na burocracia e na mquina militar nazista, Ingrao pode acompanhar o processo que vai do "traumatismo" com a derrota na I Guerra Mundial  cujos efeitos esses jovens viveram desde a infncia   formao de sua ideologia. Lendo os Lebenslufe (memoriais que os candidatos  SS deviam redigir para ingressar na organizao), o autor mostra-nos como o silncio traumtico relativamente  Grande Guerra  em nenhum dos memoriais a palavra "derrota"  mencionada  vem de mos dadas com a ideologia racista e o sentimento permanente de uma Alemanha ameaada  pelos comunistas, pelos judeus, pelos franceses. Foi a formao dessa "cultura de guerra", com suas doses de paranoia nacionalista e utopia racial, consolidada na universidade e em instituies de Estado, que fez com que esses jovens  muitos na casa dos 30 anos  planejassem, entre outros crimes, o extermnio de mais de 20 milhes de pessoas no Leste Europeu, que resultou na efetiva execuo de mais de 1 milho de seres humanos pelos Einsatzgruppen, as "unidades de interveno". A anlise de tal "cultura de guerra" na trajetria desses indivduos mostra ao leitor o que foi preciso para "crer e destruir". Uma lio sobre nossa natureza, mais do que sobre a histria.
EDUARDO WOLF


6#4 TELEVISO  A NUDEZ CASTIGADA
Magnfica 70 fantasia uma aliana entre um censor e o cinema barato da Boca do Lixo. Pena que a srie prefira os clichs do dramalho  baguna da pornochanchada.
MARCELO MARTHE

     Em uma sala de projeo na Censura Federal, Vicente (Marcos Winter) avalia uma nova produo da Boca do Lixo  regio paulistana de onde saam aqueles filmes erticos de quinta categoria que abundavam (sem trocadilho) nos anos 70, durante a ditadura militar. Vicente ganhou seu emprego graas ao sogro, general que encontrou nele o marido h tanto tempo esperado por sua filha mais velha, a inspida Isabel (Maria Luiza Mendona). Ao examinar A Devassa da Estudante, o entediado Vicente tem sua vida sacudida pela fico barata. Dora (Simone Spoladore), estrela do filme,  um clone da cunhadinha endiabrada que o tirava do srio e morreu em circunstncias nebulosas. Quando sua personagem se v obrigada por freiras sdicas a ficar pelada, em cena de conotao lsbica, o atormentado Vicente reage com uma tesourada: determina que aquela "indecncia" seja proibida. O enredo de Magnfica 70  nova srie nacional da HBO, que estreia no canal neste domingo, 24, s 21 horas  estabelece uma ponte improvvel entre a Boca do Lixo e o aparato da censura. Arrependido de seu rompante e inebriado pela peladona, Vicente se envolve de tal modo com seu objeto de trabalho que se converte de censor em cineasta. E sua vida de repente se transforma em uma pornochanchada dentro de um thriller de terror. 
     Magnfica 70 , ela prpria, um hbrido que deixa no espectador a sensao de juntar elementos imiscveis. A srie no  l um Mad Men, mas revela cuidado na recriao de poca. Tambm  patente o esforo do time do diretor Cludio Torres, da produtora carioca Conspirao, em aprofundar o exame interior dos personagens. Mas todo esse esforo se dilui em meio  profuso de clichs e lances mirabolantes. Alm do censor reprimido, a srie explora a sina do produtor Manolo (Adriano Garib), ex-caminhoneiro que comanda a empresa de filmes porn soft do ttulo. Ele vive com Dora, mas no pode se dar ao prazer de um "teste do sof", pois  impotente. Dora no  a periguete que parece, mas uma golpista que se infiltrou no meio para ajudar o irmo em um crime. Por fim, claro que o general da trama  uma mmia que rosna. Claro que seu intrprete tinha de ser algum com uma sutileza mpar  digamos, um Paulo Csar Pereio. 
     Com tantos floreios dramticos, Magnfica 70 deixa em segundo plano o mais divertido: a Boca do Lixo. Toscas e apelativas, as produes feitas na Rua do Triunfo satisfaziam o apetite por escapismo das massas no regime militar. Em comum, os filmes tinham a nudez e a precariedade, mas h bizarras nuances de gnero (veja o quadro ao lado.). "Havia de tudo, do lixo aos filmes autorais", diz o cineasta Alfredo Sternheim, consultor da srie da HBO  que, alis, conheceu a censura retratada no programa: seu sucesso extico Anjo Loiro, com Vera Fischer, foi proibido aps cinco semanas em cartaz, em 1973. 
     J se propalou que a censura fazia vista grossa para as pornochanchadas e perseguia o cinema novo, de "esquerda". Mas a turma da Boca sofria com a patrulha oficial dos bons costumes. "Existia muita censura, mas ningum ligava. Nossos filmes mostravam gente feliz, eram s pornochanchadas. Se houvesse gente pelada mas sofredora, virava filme de arte  e ento qualquer corte seria um escndalo", diz o noveleiro Silvio de Abreu, que dirigiu prolas trash como Cada um D o que Tem. 
     Nos anos 80, a Boca entrou em decadncia, e o cinema nacional se reduziu s produes financiadas pela estatal Embrafilme. H algo didtico a extrair da. Lixo por lixo, melhor ficar com aquele que abraou sem pudor uma marca to conhecida dos brasileiros  a esculhambao. E sem mexer com o bolso alheio: por piores que fossem, as pornochanchadas eram bancadas pela bilheteria ou por investidores privados (ainda que, como mostra Magnfica 70, muitas vezes a grana fosse suspeita). J os filhotes da Embrafilme, em geral ruins, eram chatices pagas com dinheiro pblico  anomalia que as leis de incentivo mantm viva. A ironia histrica  que a srie da HBO retrata a Boca do Lixo com a seriedade de um drama de Walter Hugo Khouri. A nudez, outra vez, acabou castigada. 

PIRAES ERTICAS
Quatro clssicos - se cabe a palavra - que cobrem a variedade das pornochanchadas produzidas na Boca do Lixo dos anos 70 

KUNG FU CONTRA AS BONECAS (1975) 
Pardia que buscava faturar em cima dos filmes de artes marciais estrangeiros. Com a musa do erotismo soft Helena Ramos entre suas estrelas,  nonsense at a medula: narra o embate entre lutadores chineses e cangaceiros gays, ou coisa que o valha 

ElAS SO DO BARALHO (1977) 
Dirigido por Silvio de Abreu, em sua encarnao pr-noveleiro,  a pornochanchada em estado puro: uma comdia sem p nem cabea na qual tudo  pretexto para exibir seios. O elenco tem habitues do gnero como Nuno Leal Maia - e at o sambista Adoniran Barbosa 

AMADAS E VIOLENTADAS (1976) 
Pertence  vertente cabea - sim, isso mesmo - da pornochanchada, especialidade do diretor Jean Garrett.  um drama psicolgico sobre um azarador de mulheres - o indefectvel David Cardoso - que tem traumas de infncia e enfrenta uma seita satnica 

DEZENOVE MULHERES E UM HOMEM (1977) 
David Cardoso - ele de novo - dirige e protagoniza a trama sobre o sequestro de universitrias por bandidos em uma viagem de nibus ao Paraguai. Para alm dos tiros e da ao, os corpes de Helena Ramos e Aldine Muller so o recheio deste hbrido inslito: uma chanchada policial 


6#5 VEJA RECOMENDA

DISCOS
WILDER MIND, MUMFORD & SONS (UNIVERSAL)
 Em seus dois primeiros discos, o grupo liderado pelo baterista, cantor e guitarrista Marcus Mumford fazia uma bem urdida revitalizao do country americano e da msica folk inglesa. Em Wilder Mind, o banjo  eletrificado  e perde espao para as guitarras eltricas  e a caipirice d lugar a um rock de arena eloquente, mais prximo de U2 e Coldplay do que dos lamentos de um Neil Young. Embora a mudana tenha decepcionado os fs de primeira hora  que se apressaram em acusar a "traio" , a diferena nem foi to gritante. Concebido em Nova York, no estdio de Aaron Dessner (do grupo The National), mas gravado em Londres, o disco preserva a principal caracterstica do Mumford & Sons. O quarteto  especialista em melodias crescentes, que explodem em refros fortes, sob medida para cantar junto. Com a eletrificao desses elementos, a banda apenas sai dos botecos e das casas de mdio porte para o estdio mais prximo. Tompkins Square Park  uma candidata e tanto a hit do ano, com seu solo de guitarra esfuziante. Cold Arms, com seu singelo acompanhamento de guitarra, serve para consolar os admiradores da fase folk do Mumford & Sons.

SOL INVICTUS, FAITH NO MORE (VOICE MUSIC)
 O Faith No More  um grupo inquieto demais para viver de canes radiofnicas. Sucesso no incio dos anos 1990 com o rap metal Epic, o quinteto de So Francisco foi aos poucos trilhando um caminho experimental, que o tirou das paradas. Ousado, extravagante, converteu-se em um ponto de partida para muitas bandas que misturavam rap e rock pesado. Em 1998, no entanto, o grupo anunciou que estava encerrando suas atividades. Mike Patton, vocalista e um dos motores criativos da banda, alternou trabalhos solo experimentais  Fantmas, Tomahawk e Peeping Tom  com o inusitado Mondo Cane, projeto no qual recriou canes de amor italianas. Em Sol Invictas, o primeiro trabalho do Faith No More depois de seu reagrupamento, em 2009, ouvem-se guitarras que trafegam por ritmos orientais e pelo som tpico das trilhas de westerns spaghetti (Superhero e Cone of Shame). E esto l os contorcionismos vocais de Patton (Black Friday). Em resumo, o novo disco soa como algo que a banda teria gravado nos anos 90  o que  bom. As excentricidades musicais do quinteto estavam to  frente de seu tempo que hoje at parecem palatveis.

TELEVISO
AMERICAN CRIME (ESTREIA NESTA TERA-FEIRA, S 22 HORAS, NO AXN)
 A estreia da srie na rede americana ABC, em maro passado, dividiu os habitantes de Modesto, na Califrnia. A cidade sai chamuscada no retrato ficcional pintado por American Crime: aparece como um caldeiro de tenses raciais alimentado por hipocrisia, truculncia policial, onipresena de gangues e drogados. Com roteiro de John Ridley (do filme 12 Anos de Escravido), a srie tem formato de antologia  quer dizer, a prxima temporada apresentar uma nova histria e novos personagens.  um contraponto perturbador  amenidade dos programas que celebram a chamada "diversidade" na TV americana. Sua fora est no apenas no realismo, mas na forma engenhosa da narrativa, que acompanha os parentes das vtimas de um crime e os suspeitos em uma sucesso de erros at o caso chegar ao tribunal. Os veteranos Felicity Huffman e Timothy Hutton fazem os pais separados de um militar assassinado  a outra vtima, sua mulher, foi violentada e encontra-se em estado crtico. Os primeiros suspeitos so um jovem mexicano, um negro viciado que tem uma namorada branca, alm de um delinquente hispnico. O registro com cara de reality show s amplifica o impacto diante de tantas vidas dilaceradas.

LIVROS
O RETRATO, DE OSVALDO PERALVA (TRS ESTRELAS; 440 PGINAS; 69,90 REAIS)
 Como tantos intelectuais de sua gerao, o baiano Osvaldo Peralva (1918-1992) acreditou que o comunismo era o caminho para um novo e brilhante mundo  e que a Unio Sovitica era a realizao dessa utopia. Formado em direito, mas jornalista de profisso, Peralva comeou a militar no Partido Comunista aos 24 anos, em 1942, quando o Brasil vivia sob a ditadura do Estado Novo. Galgou postos de relevo no Partido, at ser chamado a Moscou para um congresso do Kominform, organizao que orientava os partidos comunistas de todo o mundo. Mas ento vieram as revelaes de Nikita Kruschev sobre os crimes de Stalin, em 1956  e Peralva comeou a ver a natureza totalitria do comunismo. O Retrato, publicado no incio dos anos 60  e republicado agora com pequenas revises feitas por Peralva pouco antes de morrer ,  um poderoso testemunho da desiluso do autor. O memorialista  especialmente custico com figures do comunismo brasileiro, como Lus Carlos Prestes (acusado de "subservincia poltica e intelectual ante os soviticos") e Joo Amazonas (que "nunca teve a veleidade de pr a cabea para pensar").

MENTIRAS DE VERO, DE BERNMARD SCHLINK (TRADUO DE CLAUDIA ABELING; RECORD; 288 PGINAS; 35 REAIS)
 Bernhard Schlink nasceu em 1944, menos de um ano antes da rendio da Alemanha na II Guerra Mundial. Sua consagrao internacional veio com O Leitor, um romance que trata dos segredos terrveis dos tempos do nazismo e da culpa que os alemes carregaram pelo ps-guerra. Os sete contos de Mentiras de Vero percorrem outros tempos e paisagens. Nem todos os personagens vivem na Alemanha (Baixa Estao, que abre o volume, se passa em Cape Cod, destino de veraneio nos Estados Unidos), e nenhum tem passado nazista. Schlink debrua-se principalmente sobre as frustraes e angstias da gerao de alemes que, como ele, nasceram pelo fim da guerra. O professor que tardiamente tenta se aproximar da famlia mas no hesita em contar  mulher que est morrendo de cncer; o pai de famlia que, para preservar a iluso de paz domstica, corta toda a comunicao de sua casa com o exterior; a velha senhora que reencontra um antigo amor  cada uma dessas figuras, comuns mas complexas,  explorada com uma delicada nota de melancolia. 


6#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE
2- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
3- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA
4- Deuses de Dois Mundos  O Livro da Morte. PJ Pereira. DA BOA PROSA
5- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito 
6- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
7- Invaso do Mundo da Superfcie. Mark Cheverton. GALERA RECORD
8- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE
9- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO 
10- Como Eu Era Antes de Voc. Jojo Moyes. INTRNSECA

NO FICO
1- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS
2- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
3- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA
4- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
5- Eu No Sei Lidar. Lucas Silveira. DUBLINENSE
6- Meu Universo Particular. Frederico Elboni. BENVIR
7- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
8- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA 
9- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA 
10- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
3- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE
4- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA 
5- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
6- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva.  SEXTANTE 
7- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
8- O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA 
9- O Poder da Escolha. Zbia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
10- O que Realmente Importa?. Anderson Cavalcante. SEXTANTE


6#7 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - A REPBLICA QUE NO SOMOS
     Por ocasio da demisso do ministro da Comunicao Social, jornalista Thomas Traumann, dois meses atrs, a Folha de S.Paulo ilustrou a notcia com uma foto em que o demitido aparecia contra o pano de fundo do carro preto a que tinha direito, nas funes que acabara de perder. Nos Estados Unidos o porta-voz da Casa Branca no tem carro oficial. No Brasil, tempos atrs, tambm no tinha, nem merecia o ttulo de ministro. Como, de uns tempos para c, passou a dar ministro por aqui como chuchu no mato, e carro oficial mais ainda, Traumann e o carro entretiveram a caracterstica relao simbitica. 
     Carro oficial  um dos atributos, e dos mais decisivos, que substituem os ttulos de nobreza no regime dito republicano. Engana-se quem pensa que eles foram feitos para transportar os passageiros. Para isso os txis bastavam. Foram feitos para impressionar e intimidar. A cada um dos 81 senadores da Repblica corresponde um carro oficial. Quando, no mesmo dia em que Traumann foi demitido, o ministro Joaquim Levy recebeu para um caf da manh os membros da Comisso de Assuntos Econmicos do Senado, foi um nunca acabar de carros pretos que chegavam, a tresandar poder e prestgio. O ajuste fiscal que se cuidasse. 
     Na verdade, tais casos pontuais constituem apenas a espuma no mar de uso e abuso de carros oficiais Brasil afora. Em Braslia, no  preciso reunio com ministro para deparar com eles. H preocupao, de uns tempos para c, em no exibi-los em shopping centers ou em lazeres noturnos, tantos foram os flagrantes estampados na imprensa. Isso no significa moderao em seu uso. Na hora do almoo, que sempre pode ser travestida de hora de contatos de trabalho, eles se acumulam  porta dos restaurantes. 
     O Instituto Pompeu de Pesquisas Aleatrias (IPPA) andou investigando as frotas de alguns rgos. A Cmara dos Deputados, mais modesta que o Senado, s disponibiliza carros oficiais para os membros da mesa e alguns outros dirigentes, num total de quinze pessoas. Mas pensa o leitor que seu exemplo  seguido nos estados? Na Assembleia Legislativa de So Paulo o sonho do carro oficial prprio se realiza para todos os 94 deputados, e ainda sobram alguns para determinados funcionrios e assessores.  muito?  pouco, quando entra em cena o portentoso Tribunal de Justia de So Paulo, com seus 365 desembargadores e 95 juzes substitutos. Para servi-los, permanece a postos uma frota de 334 veculos. No Supremo Tribunal Federal, caso excepcionalssimo nesta nossa dita Repblica  o da ministra Crmen Lcia, que vai e volta do trabalho dirigindo o prprio carro. Os demais ministros e dirigentes administrativos compartilham entre si 21 carros oficiais. Na Suprema Corte dos EUA s o presidente tem carro oficial. 
     (O IPPA tentou obter dados sobre carros oficiais tambm junto  Presidncia da Repblica e ao Ministrio da Fazenda. S obteve protelaes e desconversas. Talvez seja ineficincia, talvez falta de transparncia, talvez as duas.) 
     Em tempos de ajuste fiscal o governo promete "cortar na carne". Corta investimento, corta aposentadorias do INSS, mas nem arranha a carne. Os 22.000 cargos federais de livre nomeao continuam intactos, e neste momento mesmo oferecidos na bolsa de prebendas e boquinhas. Ao carro oficial juntam-se os auxlios-moradia, auxlios-palet e tantos outros penduricalhos. O carro oficial, porque visvel e to abundante, nos trs poderes e nos trs nveis de governo,  um eloquente smbolo da repblica que no somos.
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     Financiamento pblico ou doao empresarial? A reforma poltica em gestao no Congresso quer as duas, o melhor dos mundos para os polticos. O jornal O Globo publicou reportagem mostrando que  exceo do PT, no por acaso o partido do governo, todos os outros partidos, inclusive PMDB e PSDB, alimentam seus cofres mais do fundo partidrio, ou seja, de financiamento pblico, do que de doaes. Dos 32 partidos existentes, dezessete tm no fundo partidrio mais de 90% de sua receita. As doaes empresariais, de seu lado, esto estigmatizadas desde que o delator Paulo Roberto Costa enunciou sua hoje famosa lei: "so simples emprstimos, a ser cobrados com juros altos". Entre financiamento pblico e doao empresarial, o ideal  nenhum dos dois. Os partidos, entidades privadas, que se alimentem das doaes dos apoiadores e admiradores. Se so representativos, ho de t-los. E, se no os tiverem, tanto melhor. Acintosas como a multiplicao dos carros oficiais so as campanhas  base de jatinhos, superproduces televisivas e milionrias equipes de marqueteiros. 

